Ao se observar a forma e a estruturação do texto "Aurora", pode-se concluir q...

Ao se observar a forma e a estruturação do texto "Aurora", pode-se concluir que se trata de:


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Texto 2



A AURORA


A aurora chegou vestida de cor-de-rosa, passou pela vidraça, passou através de minhas pálpebras, acordou meus olhos. Mas não me acordou a alma, que ficou dormente-não-dormindo, boba e semi-iluminada. Depois, ela, a aurora, foi esvoaçar sobre os telhados, e era como se aquilo estivesse acontecendo no passado. Meus olhos ficaram espiando aquela aurora doida que esvoaçava e se adelgaçava e deixava nascer de seu ventre róseo os primeiros passarinhos matutinos.


Como são vivos e novos os passarinhos enxotados pela aurora! Como a alma de um homem é boba e vadia! Como a doçura da preguiça de uma criatura que amanhece infantil! Como às vezes, ao surgir o dia, o homem se descobre miraculosamente perdoado de todos os crimes, crimes não, de todas as coisas feias que cometeu. Que nem cometeu, que deixou acontecer. Quem nos perdoa, não sabemos. Talvez seja assim: o sofrimento se junta, vai se juntando dentro da gente, lacerando, doendo, até que um dia a dor é tanta que nos pune. Então, ficamos perdoados. Puros, recomeçamos de alma nova, voltados à limpura como exercício de escola.


Voltando à aurora, ela começou a sentir que morria. Ficou pálida. Um vento frio levantava as grinaldas da janela. As árvores começaram miraculosamente a dar folhas e frutos. Os pássaros se coloriram. Trens fumacentos avançaram sobre a cidade. Homens gritavam vendendo coisas. Ah, a aurora foi ficando palidíssima e morreu, morreu bem em cima de meus olhos, no instante em que as duas últimas estrelinhas eram riscadas do show noturno. Amanhecia implacavelmente.


Aí chegou a vez do enterro da aurora. O coche foi levado por andorinhas de sobrecasaca, foi levado para muito longe, para muito além de um monte escuro, e desapareceu.


Fiquei só outra vez. Por um momento quis que ela voltasse. Depois resolvi ser novamente um homem, com duas pernas, dois braços, dez dedos práticos, com uma cabeça que deve decidir de onde pôr os meus pés. É meio mórbido ficar flanando indefinidamente a perda de uma aurora, mesmo uma aurora especial como aquela, capaz de perdoar-nos os pecados.


Ergui-me da cama resoluto como um rei e fui lavar a cara. Escovei os dentes com um máximo de alegria. Abençoado sejas, irmão dentifrício, que me refrescas a boca.


Em jejum, acendi como sempre o primeiro cigarro. Que me dá tosse. Não importa. Abençoado sejas, irmão fumo, irmão fumaça que sobes para o céu.


Deitei-me na cama de novo enquanto os cavalos dos poemas antigos traziam o Sol em atropelada brilhante. Vi-os fortes e louros romper pelo céu onde tinha morrido de morte linda a aurora. Abençoado seja o Sol. Abençoado seja o dia. Abençoado seja o descanso. Abençoados sejam os pássaros diurnos e noturnos. Abençoadas sejam as criaturas de todo o mundo. Abençoado o fogo; a terra; o ar; a água. Abençoada seja a aurora. Que me perdoe de meus pecados.


CAMPOS, Paulo Mendes. O amor acaba. Crônicas líricas e

existenciais. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2013.


Ao se observar a forma e a estruturação do texto "Aurora", pode-se concluir que se trata de:
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  • David Castilho
    David Castilho EQUIPE
    18/09/2026 • 21:02
    Vamos falar um pouco sobre gêneros textuais para entender melhor o que caracteriza cada um e poder identificar a que gênero o texto 'Aurora', de Paulo Mendes Campos, pertence.

    Primeiramente, um conto costuma ter uma narrativa curta, com personagens, um enredo, conflito e desfecho bem definidos. Já uma carta é um texto dirigido a alguém, tem geralmente vocativos, uma estrutura de saudação e despedida, além de ser mais pessoal e direta.

    A crônica é um gênero textual muito usado na imprensa, que traz reflexões, situações do cotidiano, descrições pessoais com uma linguagem relativamente informal e uma atmosfera quase conversacional. Ela procura retratar um momento ou uma sensação, muitas vezes misturando o pessoal com o universal.

    A poesia se caracteriza por uma linguagem mais estética, ritmo, imagens poéticas, muitas vezes estruturada em versos e estrofes. Um resumo é uma síntese clara e objetiva de um texto maior, sem a presença de elementos subjetivos.

    No caso do texto em questão, observamos que ele não é dividido em versos, não apresenta vocativos ou elementos típicos de uma carta, nem estrutura narrativa exemplar de um conto, e não é uma síntese de outro texto. Pelo contrário, é um relato intimista, com reflexões, imagens poéticas que surgem no cotidiano, uma linguagem próxima do leitor.

    Portanto, o texto se configura melhor como uma crônica, pois traz um momento do autor com a aurora, expressa sentimentos e reflexões pessoais, com uma linguagem acessível e um tom quase de conversa.

    Gabarito: c) uma crônica.
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