Desenvolvendo o tema sinalizado no título, o autor se vale de recursos que re...

Desenvolvendo o tema sinalizado no título, o autor se vale de recursos que respondem pela coerência textual, tais como


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As dificuldades para lidar com o que o destino nos traz


Não é trivial analisar, ao menos a meus olhos míopes, a complexidade do mundo de hoje, e, menos ainda, ter claro como deveríamos lidar com o que há, e com o que o destino nos traz. Uma provocação interessante seria explorar eventuais conexões entre “fato” (aquilo que foi feito), “fado” (destino, aquilo que foi dito, postulado por alguma transcendência) e “fatalidade”, um acontecimento vivido como destino.

Quando sentimos a serenidade abalada, vem à memória o torturado solilóquio* de Hamlet: o dilema entre sofrer passivamente as flechas da fortuna**, ou postar-se contra o mar de aflições. O célebre trecho não refletiria uma opção entre coragem e covardia, mas entre duas atitudes diante da fatalidade. Hamlet sabe que “o mar” não pode ser derrotado e hesita, não porque teme agir, mas porque sabe que sua ação não resolverá o mundo. A pergunta dele talvez não seja “o que se deve escolher?”, mas “como viver com o que não escolhemos?”.

Para os estoicos, o destino não é capricho dos deuses, mas uma necessidade racional do cosmos. A ética consistiria em viver de acordo com a natureza, aceitar o que não depende de nós e agir virtuosamente no que depende. O estoico não se queixa, rejeita o ressentimento e mantém a dignidade sem ilusões; o mundo seria, no fundo, compreensível, e a serenidade, possível.

Uma terceira via, que seguiria sem rebelar-se ao fado, nem tentar sua “domesticação” via razão, seria a adotada por Nietzsche: o “amor fati”, literalmente “amor ao destino”, amor ao mundo como é, sem buscar desculpas. Em Ecce Homo, ele afirma: “Minha receita para a grandeza do ser humano (amor fati) é não querer nada diferente, nem para frente, nem para trás, por toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, ou justificá-lo, mas amá-lo”. Assumir o destino como fato, e responder por ele, sem a resignação estoica, nem a hesitação hamletiana. Não se questiona se o mundo é justo, racional ou digno; pergunta-se apenas se somos capazes de afirmá-lo. Amor fati – amar o destino – seria a recusa radical ao álibi. Não cabe dizer “tudo acontece por alguma razão”, mas sim afirmar “isto aconteceu – e eu o assumo”. Amar o destino é tratar o fado como se fato fosse, não no sentido de tê-lo causado, mas em responder por ele.

Amenizando, haveria talvez ainda outra resposta, bem menos rebuscada e muito mais conhecida, que veio de um conjunto musical nos anos 70. Ela nos tranquiliza lembrando-nos que, quando estamos em tempos de tribulação, “… a mãe Maria vem a mim e me diz, com palavras de sabedoria, ‘deixa estar’”… Let it be!


(Demi Getschko, “As dificuldades para lidar com o que o destino nos traz”,
O Estado de S.Paulo. Disponível em: https://www.estadao.com.br/
economia/demi-getschko/as-dificuldades-para-lidar-como-que-o-destino-nos-traz/. Adaptado)
Desenvolvendo o tema sinalizado no título, o autor se vale de recursos que respondem pela coerência textual, tais como
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  • Matheus Fernandes
    Matheus Fernandes EQUIPE
    11/10/2026 • 17:01
    Nesta questão, o autor trata do tema do destino a partir de diferentes perspectivas filosóficas e culturais, fazendo uma reflexão sobre como podemos compreender e lidar com o que o destino nos traz. O texto traz referências a Hamlet (dilema entre sofrer ou reagir), o estoicismo (aceitação racional do destino), Nietzsche (amor fati, aceitação ativa e amorosa do destino) e a música popular dos anos 70 (Let it be). Essa combinação demonstra claramente que o autor utiliza abordagens de diferentes âmbitos históricos e culturais para enriquecer sua análise.

    As alternativas devem ser analisadas considerando a coerência do texto com essas linhas de pensamento. A opção (a) fala em defesa de um ponto de vista próprio que mostra contradições, mas o texto não critica os filósofos citados, pelo contrário, apresenta suas ideias de forma respeitosa e integradora.

    A alternativa (b) afirma que são questões superadas, o que não condiz, já que o texto mostra a atualidade dessas reflexões.

    A opção (c) fala em apreciação crítica e convite à adesão, mas o texto não impõe uma adesão, apenas expõe e questiona modos de lidar com o destino.

    A alternativa (d) parece ser a mais adequada, pois o autor realmente faz referências históricas e culturais variadas para abordar o tema ao longo do tempo.

    Por fim, o item (e) que fala em violação de princípios éticos não é mencionado ou sugerido no texto.

    Portanto, a abordagem coerente do texto é a de combinar diferentes universos culturais para tratar a complexidade do tema.

    Gabarito: d
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