Em “Lenine era isto. Lenine era aquilo.” (3º§), o efeito de exagero na caract...

Em “Lenine era isto. Lenine era aquilo.” (3º§), o efeito de exagero na caracterização do personagem é produzido em razão:


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Lenine
(Manuel Bandeira)

Homens há que levam uma vida obscura e só depois da morte se vai tecendo a lenda em que se lhes perfaz a glorificação. A outros, ao contrário, a lenda os anuncia. Surge primeiro um nome, até então de todo desconhecido, e em torno dele as imaginações trabalham, as informações contraditórias pululam, e à mercê desse lento processo de cristalização uma estranha figura vai avultando extra-real e muitas vezes com proporções até nitidamente inumanas.

Lenine era para mim um desses nomes. E no entanto, preciso dizê-lo, Lenine foi uma das grandes decepções de minha vida. Assim acontece sempre quando a imaginação superexcitada longamente se encontra de repente face a face com a realidade no cotidiano das coisas.

Lenine!... Lembram-se como essas três sílabas começaram a aparecer no serviço telegráfico da guerra? No atordoamento das derrotas russas o nome se insinuava misteriosamente como de um habilíssimo espião a soldo de agentes alemães e servindo contra a sua própria pátria. Lenine era isto. Lenine era aquilo. Lenine era agente alemão?

O nome por si só vivia de uma vida intensa. Dir-se-ia criação verbal de um grande poeta, um desses grandes artistas que guardam toda a força mesmo sob os gestos de maior carinho. [...]

Quando, porém, chegou a hora de maiores intimidades intelectuais, Lenine se mostrou já imbuído do que há de mais odioso no espírito pequeno-burguês: a preocupação do ganho, a cobiça dos bens materiais, o gozo e delícia da propriedade.

Se me encontrava na rua, pedia tostão. Se me via à janela, entrava a pedinchar quanto deparava em minha sala:

- Me dá um livro! aquele!
- Aquele é em francês, você não entende.
- Então aquele! - Aquele é em inglês.
- Não tem figura? - Não tem figura.
- Deixe ver! [...]

(ANDRADE, Carlos Drummond de et al. Elenco de cronistas
modernos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995)
Em “Lenine era isto. Lenine era aquilo.” (3º§), o efeito de exagero na caracterização do personagem é produzido em razão:
Analisando...
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  • Marcos de Castro
    Marcos de Castro EQUIPE
    07/10/2026 • 06:02
    Vamos falar aqui sobre as figuras de linguagem e como elas ajudam a criar efeitos de sentido no texto. Uma das estratégias muito usadas para transmitir uma ideia com mais intensidade é o exagero, que pode ser construído com recursos específicos, como a repetição, paralelismo, entre outros. Na frase destacada – “Lenine era isto. Lenine era aquilo.” – o autor usa a repetição da estrutura "Lenine era..." para criar uma sensação de acumulação de características, geralmente contraditórias ou variadas, reforçando a confusão e a multiplicidade de rumores sobre Lenine.

    Esse recurso é o paralelismo sintático, porque temos orações com a mesma estrutura gramatical, o que ajuda a enfatizar o efeito de sobrecarga de informações, conduzindo ao exagero na caracterização do personagem. Isso quer dizer que não é apenas a repetição do nome que causa o efeito, mas a repetição paralela da estrutura inteira que gera impacto e expressão da multiplicidade de versões sobre Lenine.

    Portanto, a alternativa correta é a letra b) das orações em paralelismo sintático.
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