Ao lermos a crônica acima, publicada por Clarice Lispector na década de 70, p...

Ao lermos a crônica acima, publicada por Clarice Lispector na década de 70, percebemos que a crítica da autora, se interpretada com inferências da atualidade, pode ser bem contemporânea, posto que:


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Leia o texto abaixo para responder a questão.


Você é um número

Por Clarice Lispector

Se você não tomar cuidado vira número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista tem carteira com número, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento -- tudo é número.

Se é dos que abrem crediário, para eles você é um número. Se tem propriedade, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras, tem o número da cadeira.

É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber das coisas. Ou aulas de Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral.

Se você é comerciante, seu alvará de localização o classifica também.

Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio também recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número no recenseamento. Se é católico recebe número de batismo. No registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também.

Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás, é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número. Uma amiga minha contou que no Alto Sertão de Pernambuco uma mulher estava com ofilho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pôde ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados.

Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica.

Nós vamos lutar contra isso. Cada um é um, sem número. O si-mesmo é apenas o si-mesmo.

E Deus não é número.

Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número seco, como um osso branco seco exposto ao sol. Meu número íntimo é 9. Só. 8. Só. 7. Só. Sem somá-los nem transformá-los em 987. Estou me classificando como um número? Não, a intimidade não deixa. Veja, tentei várias vezes na vida não ter número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos amar que amor não tem número. Ou tem?

Fonte: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/12336/voce-e-um-numero

Ao lermos a crônica acima, publicada por Clarice Lispector na década de 70, percebemos que a crítica da autora, se interpretada com inferências da atualidade, pode ser bem contemporânea, posto que:
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  • Matheus Fernandes
    Matheus Fernandes EQUIPE
    25/10/2026 • 13:01
    Vamos conversar um pouco sobre a crônica de Clarice Lispector que problematiza o uso excessivo de números na vida humana. Ela critica como as pessoas acabam sendo reduzidas a meros números, perdendo sua individualidade e essência. Clarice destaca a desumanização causada por essa prática e a necessidade de preservar o aspecto humano, o amor e a identidade plena.

    Na questão, todas as alternativas tentam interpretar essa mensagem e sua relação com o contexto atual. A alternativa a) fala sobre a importância e valorização da matemática, mas no texto Clarice quer justamente aprender matemática para entender esse mundo numérico, sem desvalorizar o ensino. A alternativa b) afirma que Clarice defende os números e não o humano, o que é contrário à proposta do texto, que questiona a numeração excessiva.

    A alternativa c) é a que melhor sintetiza a crítica de Clarice: o ser humano sendo reduzido a um número, o que se agravou em momentos como a pandemia, e a necessidade do amor para transcender essa desumanização. As alternativas d) e e) distorcem a posição da autora, sugerindo que ela defende apenas a objetividade ou os números, enquanto seu texto é claro ao protestar contra isso.

    Portanto, a alternativa correta é a letra c).
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