O uso da ironia, figura de linguagem característica da prosa de Machado de As...

O uso da ironia, figura de linguagem característica da prosa de Machado de Assis, é predominante no primeiro parágrafo da crônica Bons dias! e ampara o resto da narrativa. No primeiro parágrafo, a ...


publicidade
📖 Texto associado
Bons dias!
1 Eu pertenço a uma família de profetas après coup,
post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome
tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que
4 toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista,
tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de
alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos,
7 mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por
mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.
(...)
10 No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro
falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha
e declarei que acompanhando as ideias pregadas por Cristo, há
13 dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio;
que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas
ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era
16 um dom de Deus, que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como
um furacão, e veio abraçar-me os pés.
19 (...)
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com
rara franqueza:
22 — Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens
casa amiga, já conhecida, e tens mais um ordenado, um
ordenado que...
25 — Oh! Meu senhô! Fico.
— ...Um ordenado pequeno, mas que há de crescer.
Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando
28 nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto
que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...
— Artura não qué dizê nada, não, senhô...
31 — Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é
de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales
muito mais que uma galinha.
34 — Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano,
se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que
37 lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas;
efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco,
sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil
40 adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de
mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Boas noites.
Machado de Assis. Obra completa. Vol. III. 3.ª ed.
Rio de Janeiro: José Aguilar, 1973, p. 489-91.
Tendo como referência o fragmento acima, da crônica Bons dias!,de Machado de Assis, julgue o item.
O uso da ironia, figura de linguagem característica da prosa de Machado de Assis, é predominante no primeiro parágrafo da crônica Bons dias! e ampara o resto da narrativa. No primeiro parágrafo, a ironia manifesta-se quando o narrador
Analisando...
publicidade

🚀 Desbloqueie a explicação completa

Veja comentários detalhados e resoluções exclusivas para entender o gabarito desta questão.

Criar conta grátis
  • Rodrigo Ferreira
    Rodrigo Ferreira EQUIPE
    18/08/2026 • 15:47
    Vamos analisar o enunciado e as alternativas com calma.

    O fragmento é uma crônica de Machado de Assis, e sabemos que ele usa muito a ironia, especialmente para criticar ou fazer comentários sutis sobre a sociedade e os acontecimentos.

    No primeiro parágrafo, o narrador diz: "Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês." A expressão "après coup" e "post factum" indicam algo que é dito ou percebido depois que o fato já aconteceu. "Depois do gato morto" é uma expressão popular que significa "depois que o problema já aconteceu", ou seja, quando já não adianta mais prever ou evitar.

    Então, o narrador ironiza dizendo que é profeta "depois do fato", ou seja, só consegue prever algo quando já aconteceu, o que é uma ironia sobre a própria ideia de profecia.

    Agora, vamos às alternativas:

    a) "declara pertencer a uma família de profetas, mas contradiz essa informação ao complementá-la com a expressão “depois do gato morto”."

    Essa alternativa está correta, pois o narrador se apresenta como profeta, mas logo em seguida mostra que essa profecia é inútil, pois só ocorre depois do fato, o que é uma contradição irônica.

    b) "utiliza a expressão “depois do gato morto” em sentido figurado, para se referir ao resultado de uma catástrofe."

    Não é exatamente uma catástrofe, mas sim um problema ou fato consumado. A expressão é figurada, mas o foco da ironia está na inutilidade da profecia depois do fato, não na gravidade do evento.

    c) "exagera a importância do evento histórico que comenta ao utilizar a expressão “gato morto”."

    Não há exagero da importância do evento; pelo contrário, a expressão minimiza a ideia de profecia verdadeira, pois é "depois do gato morto".

    d) "emprega a expressão “gato morto” com a intenção de atenuar o sentido grave da ideia de profecia."

    A intenção não é atenuar, mas ironizar a inutilidade da profecia feita depois do fato.

    Portanto, a alternativa que melhor explica o uso da ironia no primeiro parágrafo é a alternativa a).

    Gabarito: a)
publicidade
🍪

Utilizamos cookies e tecnologias semelhantes para aprimorar sua experiência de navegação. Política de Privacidade.