| TEXTO II De olho no futuro Ana Maria Machado |
‘Papai, que é plebiscito?’
Assim começa um conto de Artur Azevedo, que
constava de muitas antologias escolares na época em
que havia leitura de coletâneas literárias como parte
5 integrante do currículo de Língua Portuguesa no país.
A maioria dos que então estudaram acompanhava o
desenvolvimento da história lida em voz alta pelos
alunos em classe, desde o início em que o pai fingia
dormir para não ter de revelar que não sabia a história,
10 passando pela insistência do filho e a pressão da mãe
para que tirasse a dúvida da criança, até a cena de
zanga paterna que incluía sair da sala e se trancar no
quarto. Após consultar um dicionário que lá havia, o
triunfal chefe de família podia elucidar que plebiscito
15 era uma lei romana que queriam introduzir no país,
num caso típico de estrangeirismo.
A história tem muita graça na linguagem divertida
do autor, que ao mesmo tempo ridiculariza o
autoritarismo patriarcal e os excessos nacionalistas
20 da época – que acabariam levando à Primeira Guerra
Mundial. Tive de resumi-la para comentá-la, pois tenho
me lembrado muito desse conto ultimamente, por
diferentes razões. Por um lado, acentua-se que criança
tem curiosidade sobre política. E sobre as palavras
25 que encontra e não conhece. Por outro lado, nos
recorda que a satisfação dessa curiosidade tem a
obrigação ética de procurar ser clara e equilibrada. Na
atual discussão tão acalorada, sobre escolas sem
partidos e os perigos da doutrinação ideológica, por
30 vezes parece que os debatedores apontam para o alvo
adjetivo e abandonam o substantivo. Esquecem que o
problema não está em incentivar ideias, estimular a
formação do conhecimento sobre ideologias, apresentar
argumentos de diferentes visões do mundo e da
35 sociedade. O risco para a educação está em alguém
com poder querendo doutrinar, falar como doutor que
não admite contestação nem dúvida, ser dogmático,
impor uma forma única de encarar a realidade e analisar
os fatos, carimbando com rótulos pejorativos e frases
40 feitas tudo aquilo que não se encaixa com perfeição
na agenda do momento. Com frequência, partidária.
(...)
“A maioria dos que então estudaram acompanhava o desenvolvimento da história lida em voz alta pelos alunos em classe, desde o início em que o pai fingia dormir para não ter de revelar que não sabia a história, passando pela insistência do filho e a pressão da mãe para que tirasse a dúvida da criança, até a cena de zanga paterna que incluía sair da sala e se trancar no quarto.” (linhas 6-13)
A construção do enunciado acima configura uma estrutura de
| TEXTO II De olho no futuro Ana Maria Machado |
Assim começa um conto de Artur Azevedo, que
constava de muitas antologias escolares na época em
que havia leitura de coletâneas literárias como parte
5 integrante do currículo de Língua Portuguesa no país.
A maioria dos que então estudaram acompanhava o
desenvolvimento da história lida em voz alta pelos
alunos em classe, desde o início em que o pai fingia
dormir para não ter de revelar que não sabia a história,
10 passando pela insistência do filho e a pressão da mãe
para que tirasse a dúvida da criança, até a cena de
zanga paterna que incluía sair da sala e se trancar no
quarto. Após consultar um dicionário que lá havia, o
triunfal chefe de família podia elucidar que plebiscito
15 era uma lei romana que queriam introduzir no país,
num caso típico de estrangeirismo.
A história tem muita graça na linguagem divertida
do autor, que ao mesmo tempo ridiculariza o
autoritarismo patriarcal e os excessos nacionalistas
20 da época – que acabariam levando à Primeira Guerra
Mundial. Tive de resumi-la para comentá-la, pois tenho
me lembrado muito desse conto ultimamente, por
diferentes razões. Por um lado, acentua-se que criança
tem curiosidade sobre política. E sobre as palavras
25 que encontra e não conhece. Por outro lado, nos
recorda que a satisfação dessa curiosidade tem a
obrigação ética de procurar ser clara e equilibrada. Na
atual discussão tão acalorada, sobre escolas sem
partidos e os perigos da doutrinação ideológica, por
30 vezes parece que os debatedores apontam para o alvo
adjetivo e abandonam o substantivo. Esquecem que o
problema não está em incentivar ideias, estimular a
formação do conhecimento sobre ideologias, apresentar
argumentos de diferentes visões do mundo e da
35 sociedade. O risco para a educação está em alguém
com poder querendo doutrinar, falar como doutor que
não admite contestação nem dúvida, ser dogmático,
impor uma forma única de encarar a realidade e analisar
os fatos, carimbando com rótulos pejorativos e frases
40 feitas tudo aquilo que não se encaixa com perfeição
na agenda do momento. Com frequência, partidária.
(...)
TEXTO I
PlebiscitoArthur Azevedo
A cena passa-se em 1890.
O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado
numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um
5 abade.
Dona Bernardina, sua esposa, está muito
entretida a limpar a gaiola de um canário belga.
Os pequenos são dois, um menino e uma
menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele,
10 encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita
atenção uma das nossas folhas diárias.
Silêncio.
De repente, o menino levanta a cabeça e
pergunta:
15 — Papai, que é plebiscito?
O senhor Rodrigues fecha os olhos
imediatamente para fingir que dorme.
O pequeno insiste:
— Papai?
20 Pausa:
— Papai?
Dona Bernardina intervém:
— Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe
chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.
25 O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir
os olhos.
(...)
| TEXTO II De olho no futuro Ana Maria Machado |
Assim começa um conto de Artur Azevedo, que
constava de muitas antologias escolares na época em
que havia leitura de coletâneas literárias como parte
5 integrante do currículo de Língua Portuguesa no país.
A maioria dos que então estudaram acompanhava o
desenvolvimento da história lida em voz alta pelos
alunos em classe, desde o início em que o pai fingia
dormir para não ter de revelar que não sabia a história,
10 passando pela insistência do filho e a pressão da mãe
para que tirasse a dúvida da criança, até a cena de
zanga paterna que incluía sair da sala e se trancar no
quarto. Após consultar um dicionário que lá havia, o
triunfal chefe de família podia elucidar que plebiscito
15 era uma lei romana que queriam introduzir no país,
num caso típico de estrangeirismo.
A história tem muita graça na linguagem divertida
do autor, que ao mesmo tempo ridiculariza o
autoritarismo patriarcal e os excessos nacionalistas
20 da época – que acabariam levando à Primeira Guerra
Mundial. Tive de resumi-la para comentá-la, pois tenho
me lembrado muito desse conto ultimamente, por
diferentes razões. Por um lado, acentua-se que criança
tem curiosidade sobre política. E sobre as palavras
25 que encontra e não conhece. Por outro lado, nos
recorda que a satisfação dessa curiosidade tem a
obrigação ética de procurar ser clara e equilibrada. Na
atual discussão tão acalorada, sobre escolas sem
partidos e os perigos da doutrinação ideológica, por
30 vezes parece que os debatedores apontam para o alvo
adjetivo e abandonam o substantivo. Esquecem que o
problema não está em incentivar ideias, estimular a
formação do conhecimento sobre ideologias, apresentar
argumentos de diferentes visões do mundo e da
35 sociedade. O risco para a educação está em alguém
com poder querendo doutrinar, falar como doutor que
não admite contestação nem dúvida, ser dogmático,
impor uma forma única de encarar a realidade e analisar
os fatos, carimbando com rótulos pejorativos e frases
40 feitas tudo aquilo que não se encaixa com perfeição
na agenda do momento. Com frequência, partidária.
(...)