“Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te” (linhas 6-12).
O vocábulo sublinhado expressa a ideia de
BOOM MACHADIANO?
Críticos estrangeiros apontam Machado como autor livre de clichês latino-americanos e distante da exuberância tropical e da crítica social.
outras culturas, sucedendo-se as traduções em várias línguas”,
Gomes enumerou entusiasmado as novas traduções de
Machado mundo afora: uma edição alemã de Memórias
póstumas de Brás Cubas e “outra deste mesmo romance
em castelhano”, e a publicação, nos Estados Unidos, de
10 mais uma tradução, assinada por William L. Grossman.
Dedicou boa parte de seu texto a comentários elogiosos
(apesar “de alguns lapsos”) às Memórias póstumas de
Grossman para indicar o “interesse excepcional que o escritor
15 Quase 70 anos mais tarde, esse “interesse excepcional”
capítulo “Das negativas”, de Memórias póstumas, que lista
o que não aconteceu. Um ensaio de Benjamin Moser, biógrafo
20 revista americana The New Yorker, perguntava por que Machado
de Moser, outros textos sobre Machado apareceram na
imprensa americana nas últimas semanas por ocasião da
publicação de The collected stories of Machado de Assis,
25 uma reunião de 76 contos traduzidos para o inglês pelos
britânicos Margaret Jull Costa e Robin Patterson. A editora
das Collected stories, não divulgou a tiragem do livro, mas
informou que os editores “estão muito contentes — mais do
30 que contentes, na verdade — com a recepção do livro nos
EUA”.
O aplauso da imprensa americana reavivou o desejo
estrangeiros acordam para o talento de Machado? “Há poucos
um retrato de página inteira de Machado e capas de livros
dele, inclusive das Collected stories”, disse o britânico John
Gledson, tradutor do estudo Dom Casmurro e autor do estudo
40 Machado foi eleito o autor do mês pela prestigiosa revista
literária britânica. “Trabalho com a obra de Machado desde
os anos 80 e ele nunca teve esse tipo de destaque na Inglaterra,
tradutora das Collected stories tem uma ótima reputação,
45 o que me dá esperança de que ela ajude a reputação de
Machado em inglês.” (...)
Texto adaptado. GABRIEL, Ruan de Sousa. Boom machadiano?
Um novo despertar estrangeiro para a obra de Machado. Revista
Época, nº 1054. Editora Globo, 10 set. 2018, p. 78-81.
BOOM MACHADIANO?
Críticos estrangeiros apontam Machado como autor livre de clichês latino-americanos e distante da exuberância tropical e da crítica social.
outras culturas, sucedendo-se as traduções em várias línguas”,
Gomes enumerou entusiasmado as novas traduções de
Machado mundo afora: uma edição alemã de Memórias
póstumas de Brás Cubas e “outra deste mesmo romance
em castelhano”, e a publicação, nos Estados Unidos, de
10 mais uma tradução, assinada por William L. Grossman.
Dedicou boa parte de seu texto a comentários elogiosos
(apesar “de alguns lapsos”) às Memórias póstumas de
Grossman para indicar o “interesse excepcional que o escritor
15 Quase 70 anos mais tarde, esse “interesse excepcional”
capítulo “Das negativas”, de Memórias póstumas, que lista
o que não aconteceu. Um ensaio de Benjamin Moser, biógrafo
20 revista americana The New Yorker, perguntava por que Machado
de Moser, outros textos sobre Machado apareceram na
imprensa americana nas últimas semanas por ocasião da
publicação de The collected stories of Machado de Assis,
25 uma reunião de 76 contos traduzidos para o inglês pelos
britânicos Margaret Jull Costa e Robin Patterson. A editora
das Collected stories, não divulgou a tiragem do livro, mas
informou que os editores “estão muito contentes — mais do
30 que contentes, na verdade — com a recepção do livro nos
EUA”.
O aplauso da imprensa americana reavivou o desejo
estrangeiros acordam para o talento de Machado? “Há poucos
um retrato de página inteira de Machado e capas de livros
dele, inclusive das Collected stories”, disse o britânico John
Gledson, tradutor do estudo Dom Casmurro e autor do estudo
40 Machado foi eleito o autor do mês pela prestigiosa revista
literária britânica. “Trabalho com a obra de Machado desde
os anos 80 e ele nunca teve esse tipo de destaque na Inglaterra,
tradutora das Collected stories tem uma ótima reputação,
45 o que me dá esperança de que ela ajude a reputação de
Machado em inglês.” (...)
Texto adaptado. GABRIEL, Ruan de Sousa. Boom machadiano?
Um novo despertar estrangeiro para a obra de Machado. Revista
Época, nº 1054. Editora Globo, 10 set. 2018, p. 78-81.
(linhas 39-41), o emprego de
que
primeiro roeu as frias carnes
do meu cadáver
dedico
como saudosa lembrança
estas Memórias Póstumas
menos a pneumonia, do que uma ideia grandiosa e útil, a
causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia,
e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso.
5 Julgue-o por si mesmo. (...)
Com efeito, um dia de manhã, estando a passear
na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu
tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a
pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim,
10 que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito,
até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.
Essa ideia era nada menos que a invenção de um
medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco,
15 destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na
petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção
do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão.
20 de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que
estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o
que me in?uiu principalmente foi o gosto de ver impressas
nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas
caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás
25 Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído,
do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me
arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão
de reconhecer os hábeis. Assim, a minha ideia trazia duas
faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra
30 para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado,
sede de nomeada. Digamos: — amor da glória.
Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava
das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que
35 retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria,
sua mais genuína feição.
Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu
40 volto ao emplasto.
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 9.ed. São
Paulo: Ática, 1982. (p.11, 14 e 15).
No fragmento de “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, o uso da primeira pessoa do singular produz o efeito de