Interpretação Textual - Português - CEDERJ - CECIERJ

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Desempenho Global
2
Resoluções
25%
Média
Difícil
Dificuldade
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  • Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te” (linhas 6-12).

    O vocábulo sublinhado expressa a ideia de

  • BOOM MACHADIANO?

    Críticos estrangeiros apontam Machado como autor livre de clichês latino-americanos e distante da exuberância tropical e da crítica social.

    Ruan de Sousa Gabriel
    “Machado de Assis já não pertence apenas à literatura
    brasileira. Suas obras passaram a interessar a
    outras culturas, sucedendo-se as traduções em várias línguas”,
    escreveu o crítico literário Eugenio Gomes no jornal
    5 carioca Correio da Manhã em 8 de dezembro de 1951.
    Gomes enumerou entusiasmado as novas traduções de
    Machado mundo afora: uma edição alemã de Memórias
    póstumas de Brás Cubas e “outra deste mesmo romance
    em castelhano”, e a publicação, nos Estados Unidos, de
    10 mais uma tradução, assinada por William L. Grossman.
    Dedicou boa parte de seu texto a comentários elogiosos
    (apesar “de alguns lapsos”) às Memórias póstumas de
    Grossman para indicar o “interesse excepcional que o escritor
    brasileiro está despertando naquele país”.
    15 Quase 70 anos mais tarde, esse “interesse excepcional”
    citado por Gomes poderia ser incluído no famoso
    capítulo “Das negativas”, de Memórias póstumas, que lista
    o que não aconteceu. Um ensaio de Benjamin Moser, biógrafo
    de Clarice Lispector, publicado no mês passado na
    20 revista americana The New Yorker, perguntava por que Machado
    ainda era tão pouco lido nos EUA. Além do ensaio
    de Moser, outros textos sobre Machado apareceram na
    imprensa americana nas últimas semanas por ocasião da
    publicação de The collected stories of Machado de Assis,
    25 uma reunião de 76 contos traduzidos para o inglês pelos
    britânicos Margaret Jull Costa e Robin Patterson. A editora
    W. W. Norton & Company, responsável pela publicação
    das Collected stories, não divulgou a tiragem do livro, mas
    informou que os editores “estão muito contentes — mais do
    30 que contentes, na verdade — com a recepção do livro nos
    EUA”.
    O aplauso da imprensa americana reavivou o desejo
    expresso por Gomes nos anos 50: será que agora os
    estrangeiros acordam para o talento de Machado? “Há poucos
    35 dias, vi uma coisa insólita na London Review of Books:
    um retrato de página inteira de Machado e capas de livros
    dele, inclusive das Collected stories”, disse o britânico John
    Gledson, tradutor do estudo Dom Casmurro e autor do estudo
    Machado de Assis: impostura e realismo. Em agosto,
    40 Machado foi eleito o autor do mês pela prestigiosa revista
    literária britânica. “Trabalho com a obra de Machado desde
    os anos 80 e ele nunca teve esse tipo de destaque na Inglaterra,
    onde se publicam traduções dele esporadicamente. A
    tradutora das Collected stories tem uma ótima reputação,
    45 o que me dá esperança de que ela ajude a reputação de
    Machado em inglês.” (...)
    Texto adaptado. GABRIEL, Ruan de Sousa. Boom machadiano?
    Um novo despertar estrangeiro para a obra de Machado. Revista
    Época, nº 1054. Editora Globo, 10 set. 2018, p. 78-81.
    A pergunta-título “Boom machadiano?” refere-se à seguinte informação da reportagem:
  • BOOM MACHADIANO?

    Críticos estrangeiros apontam Machado como autor livre de clichês latino-americanos e distante da exuberância tropical e da crítica social.

    Ruan de Sousa Gabriel
    “Machado de Assis já não pertence apenas à literatura
    brasileira. Suas obras passaram a interessar a
    outras culturas, sucedendo-se as traduções em várias línguas”,
    escreveu o crítico literário Eugenio Gomes no jornal
    5 carioca Correio da Manhã em 8 de dezembro de 1951.
    Gomes enumerou entusiasmado as novas traduções de
    Machado mundo afora: uma edição alemã de Memórias
    póstumas de Brás Cubas e “outra deste mesmo romance
    em castelhano”, e a publicação, nos Estados Unidos, de
    10 mais uma tradução, assinada por William L. Grossman.
    Dedicou boa parte de seu texto a comentários elogiosos
    (apesar “de alguns lapsos”) às Memórias póstumas de
    Grossman para indicar o “interesse excepcional que o escritor
    brasileiro está despertando naquele país”.
    15 Quase 70 anos mais tarde, esse “interesse excepcional”
    citado por Gomes poderia ser incluído no famoso
    capítulo “Das negativas”, de Memórias póstumas, que lista
    o que não aconteceu. Um ensaio de Benjamin Moser, biógrafo
    de Clarice Lispector, publicado no mês passado na
    20 revista americana The New Yorker, perguntava por que Machado
    ainda era tão pouco lido nos EUA. Além do ensaio
    de Moser, outros textos sobre Machado apareceram na
    imprensa americana nas últimas semanas por ocasião da
    publicação de The collected stories of Machado de Assis,
    25 uma reunião de 76 contos traduzidos para o inglês pelos
    britânicos Margaret Jull Costa e Robin Patterson. A editora
    W. W. Norton & Company, responsável pela publicação
    das Collected stories, não divulgou a tiragem do livro, mas
    informou que os editores “estão muito contentes — mais do
    30 que contentes, na verdade — com a recepção do livro nos
    EUA”.
    O aplauso da imprensa americana reavivou o desejo
    expresso por Gomes nos anos 50: será que agora os
    estrangeiros acordam para o talento de Machado? “Há poucos
    35 dias, vi uma coisa insólita na London Review of Books:
    um retrato de página inteira de Machado e capas de livros
    dele, inclusive das Collected stories”, disse o britânico John
    Gledson, tradutor do estudo Dom Casmurro e autor do estudo
    Machado de Assis: impostura e realismo. Em agosto,
    40 Machado foi eleito o autor do mês pela prestigiosa revista
    literária britânica. “Trabalho com a obra de Machado desde
    os anos 80 e ele nunca teve esse tipo de destaque na Inglaterra,
    onde se publicam traduções dele esporadicamente. A
    tradutora das Collected stories tem uma ótima reputação,
    45 o que me dá esperança de que ela ajude a reputação de
    Machado em inglês.” (...)
    Texto adaptado. GABRIEL, Ruan de Sousa. Boom machadiano?
    Um novo despertar estrangeiro para a obra de Machado. Revista
    Época, nº 1054. Editora Globo, 10 set. 2018, p. 78-81.
    Em construções como “Em agosto, Machado foi eleito o autor do mês pela prestigiosa revista literária britânica”

    (linhas 39-41), o emprego de

  • Texto 3 
    Ao verme
    que
    primeiro roeu as frias carnes
    do meu cadáver
    dedico
    como saudosa lembrança
    estas Memórias Póstumas

    Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi
    menos a pneumonia, do que uma ideia grandiosa e útil, a
    causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia,
    e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso.
    5 Julgue-o por si mesmo. (...)
    Com efeito, um dia de manhã, estando a passear
    na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu
    tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a
    pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim,

    10 que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, 
    deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas,
    até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.
    Essa ideia era nada menos que a invenção de um
    medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco,
    15 destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na
    petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção
    do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. 
    Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias 
    que deviam resultar da distribuição de um produto
    20 de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que
    estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o
    que me in?uiu principalmente foi o gosto de ver impressas
    nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas
    caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás
    25 Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído,
    do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me
    arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão
    de reconhecer os hábeis. Assim, a minha ideia trazia duas
    faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra
    30 para mim. De um lado, filantropia e lucro; de outro lado,
    sede de nomeada. Digamos: — amor da glória.
    Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava 
    dizer que o amor da glória temporal era a perdição
    das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que
    35 retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, 
    que o amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana 
    que há no homem, e, conseguintemente, a
    sua mais genuína feição.
    Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu
    40 volto ao emplasto.
    ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 9.ed. São
    Paulo: Ática, 1982. (p.11, 14 e 15).
      

    No fragmento de “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, o uso da primeira pessoa do singular produz o efeito de

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