Português: Interpretação de Textos - DPE SP (FCC)

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1
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40%
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Difícil
Dificuldade
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    Administração da linguagem

    Nosso grande escritor Graciliano Ramos foi, como se
    sabe, prefeito da cidade alagoana de Palmeira dos Índios. Sua
    gestão ficou marcada não exatamente por atos administrativos
    ou decisões políticas, mas pelo relatório que o prefeito deixou,
    terminado o mandato. A redação desse relatório é primorosa,
    pela concisão, objetividade e clareza (hoje diríamos:
    transparência), qualidades que vêm coerentemente combinadas
    com a honestidade absoluta dos dados e da autoavaliação -
    rigorosíssima, sem qualquer complacência - que faz o prefeito.
    Com toda justiça, esse relatório costuma integrar sucessivas
    edições da obra de Graciliano. É uma peça de estilo raro e de
    espírito público incomum.

    Tudo isso faz pensar na relação que se costuma promover
    entre linguagens e ofícios. Diz-se que há o "economês", jargão
    misterioso dos economistas, o "politiquês", estilo evasivo
    dos políticos, o "acadêmico", com o cheiro de mofo dos baúsda
    velha retórica etc. etc. E há, por vezes, a linguagem processual,
    vazada em arcaísmos, latinismos e tecnicalidades que a tornam
    indevassável para um leigo. Há mesmo casos em que se pode
    suspeitar de estarem os litigantes praticando - data venia - um
    vernáculo estrito, reservado aos iniciados, espécie de senha
    para especialistas.

    Não se trata de ir contra a necessidade do uso de conceitos
    específicos, de não reconhecer a vantagem de se empregar
    um termo técnico em vez de um termo impreciso, de abolir,
    em suma, o vocabulário especializado; trata-se, sim, de evitar o
    exagero das linguagens opacas, cifradas, que pedem "tradução"
    para a própria língua a que presumivelmente pertencem. O
    exemplo de Graciliano diz tudo: quando o propósito da comunicação
    é honesto, quando se quer clareza e objetividade no que
    se escreve, as palavras devem expor à luz, e não mascarar, a
    mensagem produzida. No caso desse honrado prefeito alagoano,
    a ética rigorosa do escritor e aética irrepreensível do
    administrador eram a mesma ética, assentada sobre os princípios
    da honestidade e do respeito para com o outro.

    (Tarcísio Viegas, inédito)

    Há mesmo casos em que se pode suspeitar de estarem os litigantes praticando - data venia - um vernáculo estrito (...)

    Nessa passagem do texto, o autor

  • 📖 Texto associado

    Contribuição de um antropólogo

    A maior contribuição do antropólogo Claude Lévi-Strauss
    (que, ainda jovem, trabalhou no Brasil, e morreu, centenário, em
    2009) é de uma simplicidade fundamental, e se expressa na
    convicção de que não pode existir uma civilização absoluta
    mundial, porque a própria ideia de civilização implica a coexistência
    de culturas marcadas pela diversidade. O melhor da
    civilização é, justamente, essa "coalizão" de culturas, cada uma
    delas preservando a sua originalidade. Ninguém deu um golpe
    mais contundente no racismo do que Lévi-Strauss e poucos
    pensadores nos ensinaram, como ele, a ser mais humildes.

    Lévi-Strauss, em suas andanças pelo mundo, foi um
    pensador aberto para influências de outras disciplinas, como a
    linguística. Foi ele também quem abriu as portas da antropologia
    para as ciências de ponta, como a cibernética, que era
    então como se chamava a informática, conectando-a com novas
    disciplinas como a teoria dossistemas e a teoria da informação.
    Isso deu um novo perfil à antropologia, que propiciou uma nova
    abertura para as ciências exatas, e reuniu-a com as ciências
    humanas.

    Em 1952, escreveu o livro Raça e história, a pedido da
    Unesco, para combater o racismo. De fato, foi um ataque feroz
    ao etnocentrismo, materializado num texto onde se formulavam
    de modo claro e inteligível teses que excediam a mera
    discussão acadêmica e se apoiavam em fatos. Comenta o
    antropólogo brasileiro Viveiros de Castro, do Museu Nacional:
    "Ele traz para diante dos olhos ocidentais a questão dos índios
    americanos, algo que nunca antes havia sido feito. O
    colonialismo não mais podia sair nas ruas como costumava
    fazer. Foi um crítico demolidor da arrogância ocidental: os
    índios deixaram de ser relíquias do passado, deixaram de ser
    alegorias, tornando-se nossos contemporâneos. Isso vale mais
    do que qualquer análise."

    Reconhecer a existência do outro, a identidade dooutro,
    a cultura do outro - eis a perspectiva generosa que Lévi-Strauss
    abriu e consolidou, para que nos víssemos a todos como
    variações de uma mesma humanidade essencial.

    (Adaptado de Carlos Haag, Pesquisa Fapesp, dezembro 2009)

    Depreende-se da leitura do texto que um legado essencial do pensamento de Lévi-Strauss é

  • 📖 Texto associado

    Administração da linguagem

    Nosso grande escritor Graciliano Ramos foi, como se
    sabe, prefeito da cidade alagoana de Palmeira dos Índios. Sua
    gestão ficou marcada não exatamente por atos administrativos
    ou decisões políticas, mas pelo relatório que o prefeito deixou,
    terminado o mandato. A redação desse relatório é primorosa,
    pela concisão, objetividade e clareza (hoje diríamos:
    transparência), qualidades que vêm coerentemente combinadas
    com a honestidade absoluta dos dados e da autoavaliação -
    rigorosíssima, sem qualquer complacência - que faz o prefeito.
    Com toda justiça, esse relatório costuma integrar sucessivas
    edições da obra de Graciliano. É uma peça de estilo raro e de
    espírito público incomum.

    Tudo isso faz pensar na relação que se costuma promover
    entre linguagens e ofícios. Diz-se que há o "economês", jargão
    misterioso dos economistas, o "politiquês", estilo evasivo
    dos políticos, o "acadêmico", com o cheiro de mofo dos baúsda
    velha retórica etc. etc. E há, por vezes, a linguagem processual,
    vazada em arcaísmos, latinismos e tecnicalidades que a tornam
    indevassável para um leigo. Há mesmo casos em que se pode
    suspeitar de estarem os litigantes praticando - data venia - um
    vernáculo estrito, reservado aos iniciados, espécie de senha
    para especialistas.

    Não se trata de ir contra a necessidade do uso de conceitos
    específicos, de não reconhecer a vantagem de se empregar
    um termo técnico em vez de um termo impreciso, de abolir,
    em suma, o vocabulário especializado; trata-se, sim, de evitar o
    exagero das linguagens opacas, cifradas, que pedem "tradução"
    para a própria língua a que presumivelmente pertencem. O
    exemplo de Graciliano diz tudo: quando o propósito da comunicação
    é honesto, quando se quer clareza e objetividade no que
    se escreve, as palavras devem expor à luz, e não mascarar, a
    mensagem produzida. No caso desse honrado prefeito alagoano,
    a ética rigorosa do escritor e aética irrepreensível do
    administrador eram a mesma ética, assentada sobre os princípios
    da honestidade e do respeito para com o outro.

    (Tarcísio Viegas, inédito)

    Está clara e correta a redação deste livre comentário sobre o texto:

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    Administração da linguagem

    Nosso grande escritor Graciliano Ramos foi, como se
    sabe, prefeito da cidade alagoana de Palmeira dos Índios. Sua
    gestão ficou marcada não exatamente por atos administrativos
    ou decisões políticas, mas pelo relatório que o prefeito deixou,
    terminado o mandato. A redação desse relatório é primorosa,
    pela concisão, objetividade e clareza (hoje diríamos:
    transparência), qualidades que vêm coerentemente combinadas
    com a honestidade absoluta dos dados e da autoavaliação -
    rigorosíssima, sem qualquer complacência - que faz o prefeito.
    Com toda justiça, esse relatório costuma integrar sucessivas
    edições da obra de Graciliano. É uma peça de estilo raro e de
    espírito público incomum.
    Tudo isso faz pensar na relação que se costuma promover
    entre linguagens e ofícios. Diz-se que há o "economês", jargão
    misterioso dos economistas, o "politiquês", estilo evasivo
    dos políticos, o "acadêmico", com o cheiro de mofo dos baús da
    velharetórica etc. etc. E há, por vezes, a linguagem processual,
    vazada em arcaísmos, latinismos e tecnicalidades que a tornam
    indevassável para um leigo. Há mesmo casos em que se pode
    suspeitar de estarem os litigantes praticando - data venia - um
    vernáculo estrito, reservado aos iniciados, espécie de senha
    para especialistas.
    Não se trata de ir contra a necessidade do uso de conceitos
    específicos, de não reconhecer a vantagem de se empregar
    um termo técnico em vez de um termo impreciso, de abolir,
    em suma, o vocabulário especializado; trata-se, sim, de evitar o
    exagero das linguagens opacas, cifradas, que pedem "tradução"
    para a própria língua a que presumivelmente pertencem. O
    exemplo de Graciliano diz tudo: quando o propósito da comunicação
    é honesto, quando se quer clareza e objetividade no que
    se escreve, as palavras devem expor à luz, e não mascarar, a
    mensagem produzida. No caso desse honrado prefeito alagoano,
    a ética rigorosa do escritor e a éticairrepreensível do
    administrador eram a mesma ética, assentada sobre os princípios
    da honestidade e do respeito para com o outro.
    (Tarcísio Viegas, inédito)

    Na construção Não se trata de ir contra (...), de não reconhecer (...), de abolir (3ºparágrafo), os elementos sublinhados têm, na ordem dada, o sentido de

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    Contribuição de um antropólogo

    A maior contribuição do antropólogo Claude Lévi-Strauss
    (que, ainda jovem, trabalhou no Brasil, e morreu, centenário, em
    2009) é de uma simplicidade fundamental, e se expressa na
    convicção de que não pode existir uma civilização absoluta
    mundial, porque a própria ideia de civilização implica a coexistência
    de culturas marcadas pela diversidade. O melhor da
    civilização é, justamente, essa "coalizão" de culturas, cada uma
    delas preservando a sua originalidade. Ninguém deu um golpe
    mais contundente no racismo do que Lévi-Strauss e poucos
    pensadores nos ensinaram, como ele, a ser mais humildes.
    Lévi-Strauss, em suas andanças pelo mundo, foi um
    pensador aberto para influências de outras disciplinas, como a
    linguística. Foi ele também quem abriu as portas da antropologia
    para as ciências de ponta, como a cibernética, que era
    então como se chamava a informática, conectando-a com novas
    disciplinas como a teoria dos sistemas ea teoria da informação.
    Isso deu um novo perfil à antropologia, que propiciou uma nova
    abertura para as ciências exatas, e reuniu-a com as ciências
    humanas.
    Em 1952, escreveu o livro Raça e história, a pedido da
    Unesco, para combater o racismo. De fato, foi um ataque feroz
    ao etnocentrismo, materializado num texto onde se formulavam
    de modo claro e inteligível teses que excediam a mera
    discussão acadêmica e se apoiavam em fatos. Comenta o
    antropólogo brasileiro Viveiros de Castro, do Museu Nacional:
    "Ele traz para diante dos olhos ocidentais a questão dos índios
    americanos, algo que nunca antes havia sido feito. O
    colonialismo não mais podia sair nas ruas como costumava
    fazer. Foi um crítico demolidor da arrogância ocidental: os
    índios deixaram de ser relíquias do passado, deixaram de ser
    alegorias, tornando-se nossos contemporâneos. Isso vale mais
    do que qualquer análise."
    Reconhecer a existência do outro, a identidade do outro,
    a cultura do outro- eis a perspectiva generosa que Lévi-Strauss
    abriu e consolidou, para que nos víssemos a todos como
    variações de uma mesma humanidade essencial.
    (Adaptado de Carlos Haag, Pesquisa Fapesp, dezembro 2009)

    Em relação aos índios americanos, a contribuição de Lévi- Strauss foi, conforme se afirma no 4ºparágrafo,

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    Administração da linguagem

    Nosso grande escritor Graciliano Ramos foi, como se
    sabe, prefeito da cidade alagoana de Palmeira dos Índios. Sua
    gestão ficou marcada não exatamente por atos administrativos
    ou decisões políticas, mas pelo relatório que o prefeito deixou,
    terminado o mandato. A redação desse relatório é primorosa,
    pela concisão, objetividade e clareza (hoje diríamos:
    transparência), qualidades que vêm coerentemente combinadas
    com a honestidade absoluta dos dados e da autoavaliação -
    rigorosíssima, sem qualquer complacência - que faz o prefeito.
    Com toda justiça, esse relatório costuma integrar sucessivas
    edições da obra de Graciliano. É uma peça de estilo raro e de
    espírito público incomum.

    Tudo isso faz pensar na relação que se costuma promover
    entre linguagens e ofícios. Diz-se que há o "economês", jargão
    misterioso dos economistas, o "politiquês", estilo evasivo
    dos políticos, o "acadêmico", com o cheiro de mofo dos baúsda
    velha retórica etc. etc. E há, por vezes, a linguagem processual,
    vazada em arcaísmos, latinismos e tecnicalidades que a tornam
    indevassável para um leigo. Há mesmo casos em que se pode
    suspeitar de estarem os litigantes praticando - data venia - um
    vernáculo estrito, reservado aos iniciados, espécie de senha
    para especialistas.

    Não se trata de ir contra a necessidade do uso de conceitos
    específicos, de não reconhecer a vantagem de se empregar
    um termo técnico em vez de um termo impreciso, de abolir,
    em suma, o vocabulário especializado; trata-se, sim, de evitar o
    exagero das linguagens opacas, cifradas, que pedem "tradução"
    para a própria língua a que presumivelmente pertencem. O
    exemplo de Graciliano diz tudo: quando o propósito da comunicação
    é honesto, quando se quer clareza e objetividade no que
    se escreve, as palavras devem expor à luz, e não mascarar, a
    mensagem produzida. No caso desse honrado prefeito alagoano,
    a ética rigorosa do escritor e aética irrepreensível do
    administrador eram a mesma ética, assentada sobre os princípios
    da honestidade e do respeito para com o outro.

    (Tarcísio Viegas, inédito)

    Atente para as seguintes afirmações:

    I. No 1º parágrafo, afirma-se que a administração do prefeito Graciliano Ramos foi discutível sob vários aspectos, mas seu estilo de governar revelou-se inatacável.

    II. No 2º parágrafo, uma estreita relação entre linguagens e ofícios é dada como inevitável, apesar de indesejável, pois os diferentes jargões correspondem a diferentes necessidades da língua.

    III. No 3º parágrafo, busca-se distinguir a real eficácia de uma linguagem técnica do obscurecimento de uma mensagem, provocado pelo abuso de tecnicalidades.

    Em relação ao texto, está correto APENAS o que se afirma em

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    Contribuição de um antropólogo

    A maior contribuição do antropólogo Claude Lévi-Strauss
    (que, ainda jovem, trabalhou no Brasil, e morreu, centenário, em
    2009) é de uma simplicidade fundamental, e se expressa na
    convicção de que não pode existir uma civilização absoluta
    mundial, porque a própria ideia de civilização implica a coexistência
    de culturas marcadas pela diversidade. O melhor da
    civilização é, justamente, essa "coalizão" de culturas, cada uma
    delas preservando a sua originalidade. Ninguém deu um golpe
    mais contundente no racismo do que Lévi-Strauss e poucos
    pensadores nos ensinaram, como ele, a ser mais humildes.

    Lévi-Strauss, em suas andanças pelo mundo, foi um
    pensador aberto para influências de outras disciplinas, como a
    linguística. Foi ele também quem abriu as portas da antropologia
    para as ciências de ponta, como a cibernética, que era
    então como se chamava a informática, conectando-a com novas
    disciplinas como a teoria dossistemas e a teoria da informação.
    Isso deu um novo perfil à antropologia, que propiciou uma nova
    abertura para as ciências exatas, e reuniu-a com as ciências
    humanas.

    Em 1952, escreveu o livro Raça e história, a pedido da
    Unesco, para combater o racismo. De fato, foi um ataque feroz
    ao etnocentrismo, materializado num texto onde se formulavam
    de modo claro e inteligível teses que excediam a mera
    discussão acadêmica e se apoiavam em fatos. Comenta o
    antropólogo brasileiro Viveiros de Castro, do Museu Nacional:
    "Ele traz para diante dos olhos ocidentais a questão dos índios
    americanos, algo que nunca antes havia sido feito. O
    colonialismo não mais podia sair nas ruas como costumava
    fazer. Foi um crítico demolidor da arrogância ocidental: os
    índios deixaram de ser relíquias do passado, deixaram de ser
    alegorias, tornando-se nossos contemporâneos. Isso vale mais
    do que qualquer análise."

    Reconhecer a existência do outro, a identidade dooutro,
    a cultura do outro - eis a perspectiva generosa que Lévi-Strauss
    abriu e consolidou, para que nos víssemos a todos como
    variações de uma mesma humanidade essencial.

    (Adaptado de Carlos Haag, Pesquisa Fapesp, dezembro 2009)

    Atente para as seguintes afirmações:

    I. A originalidade de cada cultura, segundo Lévi-Strauss, está condicionada pelo modo como cada uma venha a integrar o sistema maior da civilização.

    II. A abertura para as ciências de ponta, promovida por Lévi-Strauss, permitiu que a antropologia se beneficiasse de um novo perfil e se articulasse com novas disciplinas.

    III. Com o livro Raça e história, a pedido da Unesco, Lévi-Strauss buscou fomentar as reflexões acadêmicas e introduzir novos conceitos, a partir de novas teorias.

    Em relação ao texto, está correto APENAS o que se afirma em

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    Administração da linguagem

    Nosso grande escritor Graciliano Ramos foi, como se
    sabe, prefeito da cidade alagoana de Palmeira dos Índios. Sua
    gestão ficou marcada não exatamente por atos administrativos
    ou decisões políticas, mas pelo relatório que o prefeito deixou,
    terminado o mandato. A redação desse relatório é primorosa,
    pela concisão, objetividade e clareza (hoje diríamos:
    transparência), qualidades que vêm coerentemente combinadas
    com a honestidade absoluta dos dados e da autoavaliação -
    rigorosíssima, sem qualquer complacência - que faz o prefeito.
    Com toda justiça, esse relatório costuma integrar sucessivas
    edições da obra de Graciliano. É uma peça de estilo raro e de
    espírito público incomum.

    Tudo isso faz pensar na relação que se costuma promover
    entre linguagens e ofícios. Diz-se que há o "economês", jargão
    misterioso dos economistas, o "politiquês", estilo evasivo
    dos políticos, o "acadêmico", com o cheiro de mofo dos baúsda
    velha retórica etc. etc. E há, por vezes, a linguagem processual,
    vazada em arcaísmos, latinismos e tecnicalidades que a tornam
    indevassável para um leigo. Há mesmo casos em que se pode
    suspeitar de estarem os litigantes praticando - data venia - um
    vernáculo estrito, reservado aos iniciados, espécie de senha
    para especialistas.

    Não se trata de ir contra a necessidade do uso de conceitos
    específicos, de não reconhecer a vantagem de se empregar
    um termo técnico em vez de um termo impreciso, de abolir,
    em suma, o vocabulário especializado; trata-se, sim, de evitar o
    exagero das linguagens opacas, cifradas, que pedem "tradução"
    para a própria língua a que presumivelmente pertencem. O
    exemplo de Graciliano diz tudo: quando o propósito da comunicação
    é honesto, quando se quer clareza e objetividade no que
    se escreve, as palavras devem expor à luz, e não mascarar, a
    mensagem produzida. No caso desse honrado prefeito alagoano,
    a ética rigorosa do escritor e aética irrepreensível do
    administrador eram a mesma ética, assentada sobre os princípios
    da honestidade e do respeito para com o outro.

    (Tarcísio Viegas, inédito)

    O autor do texto comenta o relatório do prefeito Graciliano Ramos para ilustrar a

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    Administração da linguagem

    Nosso grande escritor Graciliano Ramos foi, como se
    sabe, prefeito da cidade alagoana de Palmeira dos Índios. Sua
    gestão ficou marcada não exatamente por atos administrativos
    ou decisões políticas, mas pelo relatório que o prefeito deixou,
    terminado o mandato. A redação desse relatório é primorosa,
    pela concisão, objetividade e clareza (hoje diríamos:
    transparência), qualidades que vêm coerentemente combinadas
    com a honestidade absoluta dos dados e da autoavaliação -
    rigorosíssima, sem qualquer complacência - que faz o prefeito.
    Com toda justiça, esse relatório costuma integrar sucessivas
    edições da obra de Graciliano. É uma peça de estilo raro e de
    espírito público incomum.

    Tudo isso faz pensar na relação que se costuma promover
    entre linguagens e ofícios. Diz-se que há o "economês", jargão
    misterioso dos economistas, o "politiquês", estilo evasivo
    dos políticos, o "acadêmico", com o cheiro de mofo dos baúsda
    velha retórica etc. etc. E há, por vezes, a linguagem processual,
    vazada em arcaísmos, latinismos e tecnicalidades que a tornam
    indevassável para um leigo. Há mesmo casos em que se pode
    suspeitar de estarem os litigantes praticando - data venia - um
    vernáculo estrito, reservado aos iniciados, espécie de senha
    para especialistas.

    Não se trata de ir contra a necessidade do uso de conceitos
    específicos, de não reconhecer a vantagem de se empregar
    um termo técnico em vez de um termo impreciso, de abolir,
    em suma, o vocabulário especializado; trata-se, sim, de evitar o
    exagero das linguagens opacas, cifradas, que pedem "tradução"
    para a própria língua a que presumivelmente pertencem. O
    exemplo de Graciliano diz tudo: quando o propósito da comunicação
    é honesto, quando se quer clareza e objetividade no que
    se escreve, as palavras devem expor à luz, e não mascarar, a
    mensagem produzida. No caso desse honrado prefeito alagoano,
    a ética rigorosa do escritor e aética irrepreensível do
    administrador eram a mesma ética, assentada sobre os princípios
    da honestidade e do respeito para com o outro.

    (Tarcísio Viegas, inédito)

    Considerando-se o contexto, traduz-se adequadamente o sentido de um segmento em:

  • 📖 Texto associado

    Contribuição de um antropólogo

    A maior contribuição do antropólogo Claude Lévi-Strauss
    (que, ainda jovem, trabalhou no Brasil, e morreu, centenário, em
    2009) é de uma simplicidade fundamental, e se expressa na
    convicção de que não pode existir uma civilização absoluta
    mundial, porque a própria ideia de civilização implica a coexistência
    de culturas marcadas pela diversidade. O melhor da
    civilização é, justamente, essa "coalizão" de culturas, cada uma
    delas preservando a sua originalidade. Ninguém deu um golpe
    mais contundente no racismo do que Lévi-Strauss e poucos
    pensadores nos ensinaram, como ele, a ser mais humildes.
    Lévi-Strauss, em suas andanças pelo mundo, foi um
    pensador aberto para influências de outras disciplinas, como a
    linguística. Foi ele também quem abriu as portas da antropologia
    para as ciências de ponta, como a cibernética, que era
    então como se chamava a informática, conectando-a com novas
    disciplinas como a teoria dos sistemas ea teoria da informação.
    Isso deu um novo perfil à antropologia, que propiciou uma nova
    abertura para as ciências exatas, e reuniu-a com as ciências
    humanas.
    Em 1952, escreveu o livro Raça e história, a pedido da
    Unesco, para combater o racismo. De fato, foi um ataque feroz
    ao etnocentrismo, materializado num texto onde se formulavam
    de modo claro e inteligível teses que excediam a mera
    discussão acadêmica e se apoiavam em fatos. Comenta o
    antropólogo brasileiro Viveiros de Castro, do Museu Nacional:
    "Ele traz para diante dos olhos ocidentais a questão dos índios
    americanos, algo que nunca antes havia sido feito. O
    colonialismo não mais podia sair nas ruas como costumava
    fazer. Foi um crítico demolidor da arrogância ocidental: os
    índios deixaram de ser relíquias do passado, deixaram de ser
    alegorias, tornando-se nossos contemporâneos. Isso vale mais
    do que qualquer análise."
    Reconhecer a existência do outro, a identidade do outro,
    a cultura do outro- eis a perspectiva generosa que Lévi-Strauss
    abriu e consolidou, para que nos víssemos a todos como
    variações de uma mesma humanidade essencial.
    (Adaptado de Carlos Haag, Pesquisa Fapesp, dezembro 2009)

    Pode-se, no contexto, substituir a expressão

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