Para se vingar de uma, que o havia traído, o rei degolava
todas.
No crepúsculo se casava, na alvorada enviuvava.
Uma atrás da outra, as virgens perdiam a virgindade e a
cabeça.
Sherazade foi a única que sobreviveu à primeira noite, e depois
continuou trocando uma história por cada novo dia de vida.
Essas histórias, por ela escutadas, lidas ou imaginadas, a
salvavam da decapitação. As dizia em voz baixa, na penumbra
do quarto, sem outra luz que a da lua. Dizendo essas histórias
sentia prazer, e dava prazer, mas tomava muito cuidado. Às
vezes, em pleno relato, sentia que o rei estava examinando
seu pescoço.
Se o rei se aborrecesse, estava perdida.
De medo de morrer nasceu a maestria de narrar.
Ref. In: GALEANO, Eduardo. Mulheres. Tradução de Eric Nepomuceno e
Sergio Faraco. Porto Alegre, RS: L&PM, 2017.