Questões de Concursos
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Nada por aqui
Água demais faz mal 1 Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos da América, deu, na semana passada, o aval científico 4 que faltava para que médicos e treinadores de todo o mundo revejam seus conceitos sobre a quantidade de água a ser ingerida durante as 7 atividades esportivas. Por muito tempo, a recomendação do Colégio Americano de Medicina Esportiva era que os atletas deveriam tomar o 10 máximo possível de líquidos durante o exercício físico, para evitar a desidratação. Chegava-se a sugerir o consumo de até 250 mililitros de água a 13 cada quinze minutos de atividade. Agora, o que se sabe é que a água em excesso faz mal e pode levar à hiponatremia. Caracterizada pela falta de sódio no 16 sangue, essa síndrome atinge principalmente mulheres jovens e pode levar suas vítimas à morte. A pesquisa de Harvard analisou amostras de sangue 19 de 488 corredores, antes e depois da Maratona de Boston de 2002. Embora a maioria estivesse bem hidratada, 13% dos atletas beberamtanta água que 22 apresentavam quadro de hiponatremia, com inchaço no estômago, vômito, fadiga extrema e perda de coordenação motora. Esses corredores 25 tomaram, em média, 3 litros de água. Anna Paula Buchalla. Veja, 20/4/2005, p. 69 (com adaptações). Com referência às idéias e a aspectos gramaticais do texto acima, julgue os seguintes itens.
A forma "estivesse" (R.20) expressa uma situação hipotética.
Atenção: As questões de números 1 a 20 referem-se ao texto apresentado abaixo.




No contexto em que ocorre a afirmação de que
1 De olho no que julgam ser a maior oportunidade de negócios nos próximos anos em todo o mundo, as empreiteiras brasileiras articulam a formação de grandes consórcios a fim de 4 disputar com mais chances de vitória as licitações para a ampliação do canal do Panamá. O lobby que o presidente Fernando Henrique Cardoso fez pessoalmente em março, 7 durante visita ao Panamá, é uma clara manifestação de que as empresas brasileiras contam com boas chances de serem escolhidas.
Daniel Rittner. "Ampliação do canal do Panamá atrai empreiteiras". In: Valor Econômico, 3/5/2002, p. A12.
Considerando o texto acima, julgue os itens seguintes.
Na linha 7, preservam-se o sentido textual e a correção gramatical ao se substituir o pronome relativo "que" por qual, desde que também seja alterada a preposição "de" para da.
Nos dois textos, obtém-se ênfase por meio do emprego de um mesmo recurso expressivo, como se pode verificar nos seguintes trechos:
Considere que em um cartaz com propaganda dos produtos PREVINVEST e VGBL da CAIXA exista a informação a seguir.
Nesse caso, essa informação destina-se tanto às pessoas que declaram IR, seja pela forma completa, seja pelo formulário simplificado, quanto às que são isentas de fazê-lo.
Leia o texto para responder às questões de números 18 a 30.
Sob ordens da chefia
Ah, os chefes! Chefões, chefinhos, mestres, gerentes, diretores, quantos ao longo da vida, não? Muitos passam em brancas nuvens, perdem-se em suas próprias e pequenas histórias. Mas há outros cujas marcas acabam ficando bem nítidas na memória: são aqueles donos de qualidades incomuns. Por exemplo, o meu primeiro chefe, lá no finalzinho dos anos 50: cinco para as oito da noite, e eu começava a ficar aflito, pois o locutor do horário ainda não havia aparecido. A rádio da pequena cidade do interior, que funcionava em três horários, precisava abrir às oito e como fazer? Bem, o fato é que eu era o técnico de som do horário, precisava "passar" a transmissão lá para a câmara, e o locutor não chegava para os textos de abertura, publicidade, chamadas. Meu chefe, de lá, tomou a iniciativa: – Ei rapaz, deixe ligado o microfone, largue isso aí, vá pro estúdio e ponha a rádio no ar. Vamos lá, firme, coragem! – foi a minha primeira experiência: fiz tudo como mandava e ele pôde, assim, transmitir tudo sem problemas. No dia seguinte, muita apreensão logo de manhã, aguardando o homem. Será que tinha alguma crítica? Mas eis que ele chega, simpático e sorridente como sempre, e me abraça. – Muito bem! Você está aprovado. Quer começar amanhã na locução? Alguns meses antes do seu falecimento, reencontrei-o num lançamento de livro: era o mesmo de cinquenta e tantos anos atrás: magrinho, calva luzidia, falante, sempre cheio de planos para o futuro. E o chefe das pestanas brancas, anos depois: estremecíamos quando ele nos chamava para qualquer coisa, fazendo-nos entrar na sua sala imensa, já suando frio e atentos às suas finas e cortantes palavras. Olhar frio, imperturbável, postura ereta, ágil, sempre trajando ternos impecáveis. Suas atitudes? Dinâmicas, surpreendentes. Uma vez, precisando de algumas instruções, perguntei a sua secretária se poderia "entrar". – Não vai dar. – Respondeu-me ela. – Está ocupadíssimo, em reunião. Mas volte aqui um pouco mais tarde. Vamos ver! Voltei uns cinquenta minutos depois, cauteloso, e quase não acreditei no que ouvi: – Sinto muito, o chefe está viajando para a Alemanha. Era bem diferente daquele outro da mesma empresa, descontraído, amigão de todos: não era somente um chefe, era um líder, bem conhecido entre os revendedores. Todos sentíamos prazer em trabalhar com ele, e para ele. Até quando o serviço resultava numa sonora bronca – sempre justificada, é claro. Jeitão simples, de fino humor, tratava tudo com o tempero da sua criatividade nata. "Punha para frente" até quem precisava demitir: intercedia lá fora em seu favor, o que víamos com nossos próprios olhos. Não chamava ninguém do seu pessoal a toda hora, a não ser que o assunto fosse sério mesmo: se tinha algo a tratar no dia a dia, chegava pessoalmente, numa boa, às vezes até sentava numa de nossas mesas para expor o assunto. Aliás, era o único chefe que se lembrava de me dar um abraço e dizer "parabéns" no dia do meu aniversário.
(Gustavo Mazzola, Correio Popular, 04.09.2013, http://zip.net/brl0k3. Adaptado)
De acordo com o autor, as atitudes do segundo chefe eram
Saiu da garagem, pagou
A Holanda vai cobrar tarifa por quilômetro rodado de todos os carros do país.
A intenção é diminuir os enormes congestionamentos de trânsito.
Holanda, um dos países com maior densidade populacional da Europa, é também um dos que mais sofrem com
congestionamentos de trânsito. Nos horários de pico, em Amsterdã e arredores, as lentidões chegam a se estender por
1000 quilômetros. Na tentativa de diminuir essa tortura diária infligida aos cidadãos, o ministério dos transportes
holandês anunciou que, a partir de 2012, passará a cobrar uma taxa por quilômetro rodado de todos os carros que
circulam no país. A tarifa básica será de 3 centavos de euro por quilômetro, com previsão de reajuste gradual até chegar a
6,7 centavos em 2017. Os valores serão maiores nas vias mais movimentadas e nos horários com volume de trânsito
maior. Carros híbridos e muito econômicos terão descontos. Como compensação pela nova taxa, os impostos sobre
veículos serão reduzidos. Até a cobrança entrar em vigor, todos os motoristas holandeses terão de equipar seus carros
com aparelhos de GPS, que enviarão as informações sobre sua movimentação a uma central responsável pela cobrança. A
falta do GPS acarretará multa.
Com a medida, o governo holandês espera reduzir pela metade os congestionamentos de trânsito até 2020. Outra
consequência será a diminuição das emissões de gases do efeito estufa. Esse benefício é especialmente bem-visto num
país com boa parte de seu território abaixo do nível do mar. Caso se concretize a previsão de elevação dos oceanos
devido ao derretimento das geleiras do Ártico, a Holanda seria uma das primeiras vítimas da inundação das zonas
costeiras.
(Nathalia Butti/Veja - Edição 2146 / 6 de janeiro de 2010 / com adaptações)
Acerca das ideias do texto analise:
I. Infere-se do texto que o ministério dos transportes da Holanda, na tentativa de reduzir problemas de trânsito, anunciou medidas contrárias à opinião pública daquele país.
II. De acordo com o texto, as emissões de gases do efeito estufa têm ligação direta com o grande volume de carros em circulação.
III. Depreende-se do texto que, em um período de oito anos, a partir da aplicação da medida anunciada pelo governo holandês, os congestionamentos de trânsito estarão no início do processo de redução.
Está(ão) correta(s) apenas a(s) afirmativa(s):
Os Três Porquinhos e o Lobo, “Nossos Velhos Conhecidos”
Era uma vez Três Porquinhos e um Lobo Bruto. Os Três Porquinhos eram pessoas de muito boa família, e ambos tinham herdado dos pais, donos de uma churrascaria, um talento deste tamanho. Pedro, o mais velho, pintava que era uma maravilha – um verdadeiro Beethoven. Joaquim, o do meio, era um espanto das contas de somar e multiplicar, até indo à feira fazer compras sozinho. E Ananás, o menor, esse botava os outros dois no bolso – e isso não é maneira de dizer. Ananás era um mágico admirável. Mas o negócio é que – não é assim mesmo, sempre? – Pedro não queria pintar, gostava era de cozinhar, e todo dia estragava pelo menos um quilo de macarrão e duas dúzias de ovos tentando fazer uma bacalhoada. Joaquim vivia perseguindo meretrizes e travestis, porque achava matemática chato, era doido por imoralidade aplicada. E Ananás detestava as mágicas que fazia tão bem – queria era descobrir a epistemologia da realidade cotidiana. Daí que um Lobo Bruto, que ia passando um dia, comeu os três e nem percebeu o talento que degustava, nem as incoerências que transitam pela alma cultivada. MORAL: É INÚTIL ATIRAR PÉROLAS AOS LOBOS.
Fernandes, Millôr. 100 Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro: Record, 2003.
Texto: A verdade sobre os antibióticos
De um lapso de memória nasceu uma das mais poderosas armas da medicina contra infecções bacterianas. É assim que pode ser descrita, em poucas palavras, a descoberta da penicilina em 1928, pelo bacteriologista inglês Alexander Fleming. O cientista trabalhava no Hospital St. Mary, na Inglaterra, onde observava o comportamento de uma cultura de Staphylococcus aureus, a temível bactéria que causa infecção generalizada. Um dia, Fleming saiu de férias e esqueceu em cima da mesa do laboratório uma de suas placas de cultura, com amostras de estafilococo. Ao voltar, ele notou que o mofo parecia ter produzido uma substância que conseguira atacar a bactéria. Logo, concluiu que essa mesma substância poderia ser utilizada para impedir o desenvolvimento de outras bactérias. Como o fungo chamava-se Penicillium notatum, Fleming batizou a tal substância de penicilina.
O cientista ainda descobriu que, por não ser tóxica para o corpo humano, a penicilina também poderia ser usada como remédio. “Antes da descoberta da penicilina, os cientistas tentaram de tudo: de sais de ouro a bismuto. As bactérias eram combinadas quase que por seleção natural”, observa o toxicologista Sérgio Graff (SP). “Há 70 anos, qualquer pessoa podia morrer de meningite ou pneumonia. Hoje, embora essas doenças continuem matando, conseguimos curar grande parte delas. E isso se deve, principalmente, ao uso dos antibióticos”, afirma o infectologista Marcelo Simão Ferreira, do Hospital de Clínicas de Uberlândia, da Universidade Federal de Uberlândia (MG). “Claro que a cura de uma infecção não depende só do antibiótico certo empregado, depende também do sistema de defesa do hospedeiro. Em pessoas com câncer, por exemplo, os antibióticos atuam muito menos”, ressalva.
O problema das infecções
Alexander Fleming inaugurou uma nova era dentro da medicina: a dos antibióticos. Graças a ele, milhões de soldados feridos durante a Segunda Guerra Mundial foram salvos. O termo antibiótico vem do grego e significa “contra a vida” – nesse caso a dos micro-organismos, vamos deixar claro. Hoje, alguns especialistas já refutam o termo e preferem “antimicrobiano” a “antibiótico”.
“Os antimicrobianos são comumente usados no tratamento de doenças causadas por agentes microbianos, que podem ser tanto uma bactéria (pneumonia, por exemplo) como um fungo (candidíase) ou vírus (AIDS). Essas doenças são todas chamadas de infecções e cada tipo, de acordo com o agente que a provocou, tem um tratamento específico”, detalha a farmacêutica Emília Vitória da Silva, da Faculdade de Ceilândia da Universidade de Brasília (DF).
Em linhas gerais, os antibióticos podem ser divididos em sistêmicos e tópicos. Segundo Emília, os sistêmicos são aqueles que precisam atingir a corrente sanguínea para exercer sua ação terapêutica. Podem ser administradas por via oral (boca), intramuscular (injeção no músculo), intravenosa (injeção na veia) e aerossol, entre outros. “Quando você administra um antimicrobiano por via oral, a substância atinge o estômago e passa, através da mucosa estomacal, para o sangue. Por este é levada até o seu local de ação, que geralmente é um órgão interno, como garganta ou pulmão”, detalha a farmacêutica Emília.
Já o uso tópico de antibióticos acontece quando esses agentes são aplicados diretamente na pele ou mucosas, principalmente em infecções dermatológicas (na pele), oftalmológicas (nos olhos), otológicas (nas orelhas) e ginecológicas (na vagina). “Antimicrobianos tópicos têm ação localizada e pouca, às vezes nenhuma, quantidade do medicamento atinge o sangue”, afirma a farmacêutica.
Perigo à vista
Se Alexander Fleming estivesse vivo, reprovaria o uso indiscriminado de antibióticos. Segundo estimativas de Janaína Sallas, consultora técnica no Departamento de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, 40% dos remédios consumidos hoje no Brasil são antibióticos. “A descoberta da penicilina trouxe indiscutíveis benefícios para a medicina, como elevado índice de cura e a redução no número de sequelas. Mas, por outro lado, quando tomados de maneira abusiva e sem prescrição médica, os antibióticos podem causar reações adversas e, principalmente, resistência microbiana”, alerta a especialista em saúde coletiva.
Resistência microbiana
O maior risco oferecido pelo uso indiscriminado de antibióticos, porém, é a chamada “resistência microbiana”, que piora o quadro infeccioso do paciente e reduz a eficácia do tratamento. “Quando você utiliza um antimicrobiano de maneira inadequada, os microorganismos desenvolvem uma mutação e se tornam resistentes ao agente antibiótico”, explica a farmacêutica Emília Vitória.
O toxicologista Sérgio Graff chama a atenção para outro aspecto do uso abusivo do medicamento. Ele explica que o corpo humano é colonizado por “bactérias do bem”, que reforçam o sistema de defesa do organismo em lugares estratégicos como a pele e a boca, por exemplo. Entre outras incumbências, as “bactérias do bem” são encarregadas de impedir a proliferação de “bactérias do mal”. “Quando você toma um antibiótico sem a devida prescrição médica, elimina não só as bactérias ruins do seu organismo como as boas também”, alerta o toxicologista. Entre bactérias mortas e feridas, explica ele, salvam-se as mutantes. “A partir do momento em que dizimei todas as bactérias, as mutantes começam a se multiplicar. E a produzir infecções resistentes a antibióticos”, completa.
Vírus: inimigo invencível
Embora a origem grega do termo signifique “contra a vida”, os antibióticos não conseguem agir sobre todos os micro-organismos. Na grande maioria das vezes, são eficazes contra bactérias e, em alguns casos, fungos e parasitas. “Em doenças virais, por exemplo, eles não têm eficácia alguma”, assegura Marília. Por isso mesmo a receita médica é imprescindível no ato da compra de antibióticos. Só o médico tem condições de avaliar se uma infecção é bacteriana ou viral. “O paciente não tem como distinguir uma da outra apenas pelos sintomas apresentados. Para você ter uma ideia, tanto infecções virais quanto bacterianas provocam febre no paciente”, diz a conselheira do Cremerj.
André Bernardo
Revista VivaSaúde. São Paulo: Escala, edição 189, 2019.
(adaptado)
Sobre simplicidade e sabedoria
Pediram-me que escrevesse sobre simplicidade e sabedoria. Aceitei alegremente o convite sabendo que, para que tal
pedido me tivesse sido feito, era necessário que eu fosse velho.
Os jovens e os adultos pouco sabem sobre o sentido da simplicidade. Os jovens são aves que voam pela manhã: seus
voos são flechas em todas as direções. Seus olhos estão fascinados por dez mil coisas. Querem todas, mas nenhuma lhes
dá descanso. Estão sempre prontos a de novo voar. Seu mundo é o mundo da multiplicidade. Eles a amam porque, nas
suas cabeças, a multiplicidade é um espaço de liberdade. Com os adultos acontece o contrário. Para eles, a multiplicidade
é um feitiço que os aprisionou, uma arapuca na qual nunca caíram. Eles a odeiam, mas não sabem como se libertar. Se,
para os jovens, a multiplicidade tem o nome de liberdade, para os adultos, a multiplicidade tem o nome de dever. Os
adultos são pássaros presos nas gaiolas do dever. A cadamanhã dez mil coisas os aguardam com as suas ordens (para isso
existem as agendas, lugar onde as dez mil coisas escrevem as suas ordens!). Se não forem obedecidas haverá punições.
No crepúsculo, quando a noite se aproxima, o voo dos pássaros fica diferente. Em nada se parece com o seu voo pela
manhã. Já observaram o voo das pombas no fim do dia? Elas voam numa única direção. Voltam pra casa, o ninho. As
aves, ao crepúsculo, são simples. Simplicidade é isso: quando o coração busca uma coisa só.
(...)
Na multiplicidade nos perdemos: ignoramos o nosso desejo. Movemo-nos fascinados pela sedução das dez mil
coisas. Acontece que, como diz o segundo poema do Tao-Te-Ching, as dez mil coisas aparecem e desaparecem sem
cessar. O caminho da multiplicidade é um caminho sem descanso. Cada ponto de chegada é um ponto de partida. Cada
reencontro é uma despedida. É um caminho onde não existe casa ou ninho.
(...)
O caminho da ciência e dos saberes é o caminho da multiplicidade.(...) Não há fim para as coisas que podem ser
conhecidas e sabidas. O mundo dos saberes é um mundo de somas sem fim. É um caminho sem descanso para a alma.
Sobre simplicidade e sabedoria
Pediram-me que escrevesse sobre simplicidade e sabedoria. Aceitei alegremente o convite sabendo que, para que tal
pedido me tivesse sido feito, era necessário que eu fosse velho.
Sobre simplicidade e sabedoria
Pediram-me que escrevesse sobre simplicidade e sabedoria. Aceitei alegremente o convite sabendo que, para que tal
pedido me tivesse sido feito, era necessário que eu fosse velho.
Os jovens e os adultos pouco sabem sobre o sentido da simplicidade. Os jovens são aves que voam pela manhã: seus
voos são flechas em todas as direções. Seus olhos estão fascinados por dez mil coisas. Querem todas, mas nenhuma lhes
dá descanso. Estão sempre prontos a de novo voar. Seu mundo é o mundo da multiplicidade. Eles a amam porque, nas
suas cabeças, a multiplicidade é um espaço de liberdade. Comos adultos acontece o contrário. Para eles, a multiplicidade
é um feitiço que os aprisionou, uma arapuca na qual nunca caíram. Eles a odeiam, mas não sabem como se libertar. Se,
para os jovens, a multiplicidade tem o nome de liberdade, para os adultos, a multiplicidade tem o nome de dever. Os
adultos são pássaros presos nas gaiolas do dever. A cada manhã dez mil coisas os aguardam com as suas ordens (para isso
existem as agendas, lugar onde as dez mil coisas escrevem as suas ordens!). Se não forem obedecidas haverá punições.
No crepúsculo, quando a noite se aproxima, o voo dos pássaros fica diferente. Em nada se parece com o seu voo pela
manhã. Já observaram o voo das pombas no fim do dia? Elas voam numa única direção. Voltam pra casa, o ninho. As
aves, ao crepúsculo, são simples. Simplicidade é isso: quando o coração busca uma coisa só.
(...)
Na multiplicidade nos perdemos: ignoramos o nosso desejo. Movemo-nos fascinados pela sedução das dez mil
coisas. Acontece que,como diz o segundo poema do Tao-Te-Ching, as dez mil coisas aparecem e desaparecem sem
cessar. O caminho da multiplicidade é um caminho sem descanso. Cada ponto de chegada é um ponto de partida. Cada
reencontro é uma despedida. É um caminho onde não existe casa ou ninho.
(...)
O caminho da ciência e dos saberes é o caminho da multiplicidade. (...) Não há fim para as coisas que podem ser
conhecidas e sabidas. O mundo dos saberes é um mundo de somas sem fim. É um caminho sem descanso para a alma.
Não há saber diante do qual o coração possa dizer: Cheguei, finalmente, ao lar. Saberes não são lar.
(...)
Diz o Tao-Te-Ching: Na busca do conhecimento a cada dia se soma uma coisa. Na busca da sabedoria a cada dia se
diminui uma coisa. (...) Sabedoria é a arte de degustar. A arte de degustar, distinguir, discernir. O homem dos saberes,
diante da multiplicidade, precipita-se sobre tudo o que é possível saber, na cega avidez de querer conhecer a qualquer preço. Mas o sábioestá à procura das coisas dignas de serem conhecidas. (...). A sabedoria é a arte de reconhecer e
degustar a alegria. Nascemos para a alegria.
(...)
A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou. Aprovadas foram as expectativas que
deram alegria. O que valeu a pena está destinado à eternidade. A saudade é o resto da eternidade refletido no rio do
tempo.
Ando pelas cavernas da minha memória. Há muitas coisas maravilhosas. Mas essas memórias, a despeito do seu
tamanho, não me fazem nada. Não sinto vontade de chorar. Não sinto vontade de voltar.
Aí eu consulto o meu bolso da saudade. Lá se encontram pedaços do meu corpo, alegrias. Observo atentamente, e
nada encontro que tenhas brilho no mundo da multiplicidade. São coisas pequenas, que nem foram notadas por outras
pessoas.
Diz Guimarães Rosa que felicidade só em raros momentos de distração... Certo. Ela vem quando não se espera, em
lugares que não se imagina. Dito por Jesus: É como ovento: sopra onde quer, não sabe donde vem nem para onde vai...
Sabedoria é arte de provar e degustar a alegria, quando ela vem. Mas só dominam essa arte aqueles que têm a graça da
simplicidade. Porque a alegria só mora nas coisas simples. (Adaptação, Rubem Alves, in Concerto para Corpo e Alma)
Analise as afirmativas a seguir:
I. Arapuca, no segundo parágrafo pode ser substituída por armadilha, mantendo o valor semântico.
II. Em: Eles a odeiam, no segundo parágrafo, o pronome grifado refere-se à multiplicidade.
III. Em: Querem todas, mas nenhuma lhes dá descanso, no segundo parágrafo, a palavra grifada refere-se a todas as direções.
Está(ão) correta(s) apenas a(s) afirmativa(s):


Analisando-se o segundo parágrafo do texto, conclui-se que a interpretação da expressão "pelo avesso", utilizada pelo autor em "Uma forma de avaliar a herança de D. João VI é abordar a questão pelo avesso:" (l. 20-21) baseia-se na seguinte premissa: