Segundo Afrânio Coutinho, o fragmento “Notas de
Teoria literária”:
“A ficção distingue-se de história e da biografia, por estas
serem narrativas de fatos reais. A ficção é produto da
imaginação criadora, embora, como toda arte, suas raízes
mergulhem na experiência humana. Mas o que a distingue
das outras formas de narrativa é que ela é uma
transfiguração ou transmutação da realidade, feita pelo
espírito do artista, este imprevisível e inesgotável
laboratório. A ficção não pretende fornecer um simples
retrato da realidade, mas antes criar uma imagem da
realidade, uma reinterpretação, uma revisão. É o
espetáculo da vida através do olhar interpretativo do artista,
a interpretação artística da realidade”.
(Afrânio Coutinho. Notas de Teoria Literária). O fragmento apresentado acima confirma a concepção
de que a narrativa de ficção, embora tenha origem na
experiência real, seja uma transfiguração da realidade,
a exemplo das seguintes criações do Romance
brasileiro: 1) Machado de Assis, em Memórias póstumas de
Brás Cubas, que dá voz a um defunto, que narra,
logo no primeiro capítulo, os pormenores de sua
morte.
2) Graciliano Ramos, em Vidas Secas, que
pretendendo manter indícios do Simbolismo,
afastou-se dos princípios literários românticos.
3) Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas,
que optou por transfigurar não apenas traços da
realidade, mas entrou pela área linguística e a
reinterpretou também.
4) Clarice Lispector, em A hora da Estrela, que, fiel
à ficção, questiona sua própria habilidade para
compor uma narração no gênero ‘romance’.
Estão corretas
Considerando as especificidades das estéticas romântica e realista e suas consequências na caracterização
dos personagens, bem como na configuração e na posição dos narradores, associe os títulos dos romances e
seus respectivos autores aos trechos correspondentes.
1. Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antônio
de Almeida
2. Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de
Assis
3. O crime do padre Amaro, Eça de Queirós
( ) “Cresci; e nisso é que a família não interveio; cresci
naturalmente, como crescem as magnólias e os
gatos. Talvez os gatos são menos matreiros, e,
com certeza, as magnólias são menos inquietas do
que eu era na minha infância. [...] Desde os cinco
anos merecera eu a alcunha de ‘menino diabo’;
e verdadeiramente não era outra coisa; fui dos
mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto,
traquinas e voluntarioso.”
( ) “Tornou-se muito medroso. Dormia com lamparina,
ao pé de uma ama velha. As criadas de resto feminizavam-no; achavam-no bonito, aninhavam-no no
meio delas, beijocavam-no, faziam-lhe cócegas, e
ele rolava por entre as saias, em contato com os
corpos, com gritinhos de contentamento. Às vezes,
quando a senhora marquesa saía, vestiam-no de
mulher, entre grandes risadas; ele abandonava-se,
meio nu, com os seus modos lânguidos, os olhos
quebrados, uma roseta escarlate nas faces.”
( ) “Passemos por alto sobre os anos que decorreram
desde o nascimento e batizado do nosso memorando, e vamos encontrá-lo já na idade de sete anos.
Digamos unicamente que durante todo este tempo
o menino não desmentiu aquilo que anunciara
desde que nasceu: atormentava a vizinhança com
um choro sempre em oitava alta; era colérico; tinha
ojeriza particular à madrinha, a quem não podia
encarar, e era estranhão até não poder mais.”
A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de
cima para baixo, é
“A representação do mundo, como o próprio mundo,
é operação dos homens; eles o descrevem do ponto
de vista que lhes é peculiar e que confundem com a
verdade absoluta.”
A afirmação de Simone de Beauvoir, em O segundo
sexo,
Saí dali a saborear o beijo. Não pude dormir; estirei-me na cama, é certo, mas foi o mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula fazia-me muito mai; esse tique-taque soturno, vagaroso e seco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e o da morte, e a contá-las assim:
— Outra de menos... — Outra de menos... — Outra de menos... — Outra de menos...
O mais singular é que, se o relógio parava, eu dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instanles perdidos, invenções há, que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre.
Naquela noite não padeci essa triste sensação de enfado, mas outra, e deleitosa, As fantasias tumultuavam-me cá dentro, vinham umas sobre outras, â semelhança de devotas que se abaíroam para ver o anjo-cantor das procissões. Não ouvia os instantes perdidos, mas os minutos ganhados.
ASSIS. M. Memórias póstumas de Brás Cubas, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992 (fragmento).
O capitulo apresenta o instante em que Brás Cubas revive a sensação do beijo trocado com Virgüia, casada com Lobo Neves. Nesse contexto, a metáfora do relógio desconstrói certos paradigmas românticos, porque
No antológico trecho de Dom Casmurro em que o
narrador se refere aos “olhos de cigana oblíqua e
dissimulada” de Capitu,
I. ele confere dois atributos aos olhos da cigana. II. a construção contrapõe-se a outra do narrador
Bentinho, qual seja: “olhos de ressaca”.
III. a capacidade de sedução de Capitu é sugerida
por “olhos de ressaca”.
O tema negro não é único ou obrigatório, nem se transforma em uma camisa de força para o autor afro-descendente, o que redundaria em visível empobrecimento. Por outro lado, nada obriga que a matéria ou o assunto negro estejam ausentes da escrita dos brancos, atraídos desde cedo pela busca do exótico e da cor local. Nas primeiras décadas do Modernismo, auge da moda primitivista e negrista na literatura e nas artes de vanguarda, ocorrem inúmeras apropriações, incorporadas a textos hoje clássicos, apesar da advertência de Oswald de Andrade contra a “macumba para turistas”. Por isto mesmo, é preciso enfatizar que a adoção da temática afro não deve ser considerada isoladamente e, sim, em sua interação com outros fatores, como autoria e ponto de vista.
Eduardo de Assis Duarte. Literatura afro-brasileira:um conceito em construção. In: Estudos de literatura brasileira contemporânea, n.º 31, 2008, p. 14 (com adaptações).
Considerando o texto acima e os diversos aspectos relacionados à literatura afro-brasileira, julgue o item. No final do século XIX, obras como O bom crioulo e
O cortiço, identificadas pela historiografia como
naturalistas, trouxeram não só aquilo que o autor do
texto chama de tema negro, mas também a autoria e o
ponto de vista afro-descendentes.