Leia o poema.
A Cascata
A água feminina canta e dança
com suas luas brancas, luas frias,
que se desfazem ao sol do meio-dia,
e derrama a nudez da claridade
e seu fulgor de espelhos e de espadas
nas pedras do horizonte.
Eu atravesso a ponte e sou o rio.
A canoa que passa. Sou os remos.
(Jamais deixei de ser a travessia.)
E o mundo com seus muros se espalha
entre as águas redondas e entre as sombras.
(Lêdo Ivo. O rumor da noite)
Assinale a alternativa que apresenta, entre parênteses, o nome correto da figura de linguagem empregada no verso citado.
Meio covarde
Ivan Ângelo
Eu devia ter dezesseis, dezoito anos no máximo. Teresa era uma vizinha
nova e falada. Não eram necessários muitos motivos para uma moça ficar falada
naqueles anos 50, mas Teresa conseguiu reunir quase todos: decote, vestido
justo, batom vermelho, sardas, tempo demais na janela, marido noturno e
bissexto, muito bolero no toca–discos e, motivo dos motivos, corpo em forma de
violão, como se dizia. Entre a minha casa e a dela havia um muro. Na época da
antiga vizinha, velha, feia, engraçada, amiga que eu visitava sempre, costumava
pular nosso muro para encurtar caminho. Ela não se importava e eu era quase
uma criança. Agora, olhando disfarçadamente a nova vizinha, eu ficava pensando
como seria bom pular o muro outra vez. Mas para essas coisas sou meio covarde.
O muro ficava na área do tanque de lavar roupa. Do lado de lá, ela
cantava com uma voz sensual, inquietante. Meu pai não gostava, sabe–se lá por
quê. Minha mãe também não, pode–se imaginar por quê. Talvez os motivos dele e
dela convergissem para o mesmo ponto, embora diferentes, ponto que era o meu
motivo para gostar tanto daquele canto. A voz ficava equilibrando–se em cima do
muro: "Meu bem, esse seu corpo parece, do jeito que ele me aquece, um
amendoim torradinho". Dava para ouvir minha mãe murmurar: "Sem–vergonha". O
"torradinho" era quase um gemido rouco, talvez ela cantasse de olhos fechados.
De vez em quando umas calcinhas de renda eram penduradas no varal. Minha
mãe não suportava aquilo. Eu tinha vontade de espiar por cima do muro para ver o
que ela estava fazendo, mas para essas coisas sou meio covarde.
Não era casada – a suspeita era geral. Mulher casada procura as
vizinhas, apresenta o marido, pede uma xícara de arroz emprestado. A
independência de Teresa insultava a comunidade solidária de mães, avós e filhas,
sempre se socorrendo com um molhozinho de couve, uma olhadinha no bebê, um
trocadinho para o ônibus. Os homens tinham pouco que fazer naquele quarteirão:
meninos jogando bola na rua, adolescentes trabalhando como office–boys ou
balconistas de dia e estudando à noite, maridos trabalhando de dia e relaxando à
noite com uma cervejinha — todos desejando Teresa. Quando eu voltava do
colégio, perto da meia–noite, via–a no alto do alpendre, esperando o marido, o
amante: o homem. Eu olhava, ela fumava, eu passava, ela ficava. Com a repetição
Teresa já me sorria, mas eu desconfiava do ar zombeteiro dela e nunca acreditei
no sorriso. Tinha vontade de enfrentá–la e perguntar, bem atrevido: está rindo de
mim ou pra mim? Em casa, na frente do espelho, ensaiava o tom, mãos na
cintura. Quando vinha no bonde, de volta do colégio, planejava: hoje eu falo. Mas
nunca consegui. Sou meio covarde para essas coisas.
Uma noite ela assoviou. Usava–se naqueles anos um assovio de
galanteio, de homem para mulher, um silvo curto logo emendado num mais longo,
fui–fuiiiu, que podia ser traduzido em palavras, e até era às vezes, quando a
pessoa queria ser mais discreta, ou quando estava contando que assoviaram para
ela, e nesse caso a garota falava: fulano fez um fui–fuiu pra mim. As mulheres às
vezes usavam o assovio para imitar com certa graça o jeito cafajeste dos homens,
e foi o que Teresa fez naquela noite. Tomei coragem, voltei, abri o portão, subi as
escadas, parei na sua frente no alpendre. Ela vestia um penhoar azul e sorria da
minha ousadia. Eu pretendia parecer desafiador, seguro, dono da situação, mas o
sorriso dela não indicava nada disso. Teresa disse com malícia que o marido
estava para chegar, não seria bom encontrar–me ali. Concentrei–me no papel
tantas vezes ensaiado, respondi que seria ótimo se ele chegasse, que assim eu
poderia explicar que ela havia assoviado, que eu havia subido para tomar
satisfações, que não sou palhaço... Não creio que a representação tenha sido
muito boa: ela continuava sorrindo. Recostou–se na amurada, usando a luz do
alpendre como uma atriz num palco, e sua voz quente convidou: "Ele não vem
hoje. Quer entrar um pouco?" Deveria ter sido mais prudente e recusado, mas
para essas coisas não sou covarde.
Entrei, conversamos sobre o meu futuro e o passado dela. Vem cá ver
minhas fotos, me disse, e eu a segui até um quarto pequeno onde havia uma
grande cama, um guarda–roupa, uma mesinha com um abajur. Senta, ela disse.
Apanhou no guarda–roupa uma caixa e mostrou–me fotografias de quando era
mocinha, cartas apaixonadas de antigos namorados, retratos deles ou de outros
com declarações de amor nas costas e uns versos dedicados a ela pelo namorado
atual. "Ele não é meu marido, não." Eram sonetos copiados de Camões, palavra
por palavra. Amor é ferida que dói e não se sente. Busque amor, novas artes, novo
engenho. Alma minha gentil que te partiste. "Eu não gosto muito dele, mas gosto
que ele me ame assim. Os meus namorados sempre me amaram muito." Tive
ciúmes deles e vontade de contar a ela que os sonetos eram de Camões, mas
para essas coisas sou meio covarde.
A roupa que Teresa vestia nem sempre estava onde deveria estar.
Conversar em cima de uma cama, recostar, mudar o braço de apoio, apanhar
coisas para mostrar, buscar conforto são movimentos que podem impedir um
penhoar azul de cumprir seu papel, mesmo que a pessoa não queira. Quando
chegou a hora de falarmos de nós, disse–lhe que seus olhares e sorrisos me
pareciam zombaria e me deixavam encabulado. Que tinha vontade de perguntar a
ela "o quê que há?", em tom de briga. Que tinha só dezessete (ou dezoito?) anos.
Ela falou que me achava muito sério para minha idade, muito bonitinho também,
que quando ouvia barulho de bonde depois das onze corna para o alpendre para
me ver e que às vezes me olhava por cima do muro. Tive vontade de contar que
sonhava muito com ela. Mas para essas coisas sou meio covarde.
Quase de manhã, pulei o muro que dava para minha casa. Ela me disse
que voltasse outras vezes. Era perigoso e eu deveria ter recusado. Mas para
essas coisas não sou covarde.
O texto acima foi extraído do livro "O ladrão de sonhos e outras histórias", Editora
Ática – São Paulo, 1994, pág. 46
Marque a alternativa CORRETA. No trecho, "Recostou–se na amurada, usando a luz do alpendre como uma atriz num palco, e sua voz quente convidou", o termo em negrito representa a seguinte figura de linguagem:
INSTRUÇÃO: Leia o miniconto abaixo e responda às questões 04 e 05.
Sangrando espuma
Parou de chover e a baía de Angra está deserta. A superfície do mar é lâmina mesclada de verde e cinza onde a luz do sol, refletida, cria um céu cheio de estrelas. Ao fundo, ilhas e montanhas com suas escarpas cobertas, ainda, pela vegetação atlântica, formam um degradê que se esbate em direção ao infinito. Ouço o barulho de um motor. Surge no horizonte uma pequena lancha. Corta a superfície espelhada, que sangra espuma. A princípio aquilo me agride. Mas depois reconheço que há beleza nessa intervenção do homem. São os nossos rastros.
(SEIXAS, H. Contos mais que mínimos. Rio de Janeiro: Tinta Negra Bazar Editorial, 2010.)
O conto apresenta várias associações de sentido baseadas em semelhanças. Qual figura de estilo foi usada para a construção dessas associações?
Você escolhe seu caminho, seus valores, suas ações, elas definem quem você é.
Sorrir não significa necessariamente que você está feliz. Às vezes isto significa apenas que você é forte.
"Foi mal" não é desculpa. "Valeu" não é obrigado. "Eu também" não é eu te amo!
Você percebe que é forte, quando se vê obrigado a desistir de coisas que nunca imaginou ser capaz de deixar um dia, mas apesar de tudo, levanta e segue em frente.
Encontre a pessoa que vai te dizer a verdade, mesmo que isso te deixe triste e que vá durar milhões de anos até você se recuperar. Esse é o seu verdadeiro amigo.
Não viva em função da opinião de outras pessoas. Elas não sabem o que realmente se passa pela sua vida.
O sorriso de quem ama é lindo. Mas o sorriso de quem sofre é ainda mais lindo, pois além de sofrer têm a capacidade de sorrir.
Não leve a vida tão a sério, quebre regras, perdoe rápido, ame de verdade, ria descontroladamente e nunca lamente nada que tenha feito.
Por fim, acredite em Deus, pois apesar das dificuldades, nada sem Deus é tudo.
Jô Soares – Disponível em https://www.pensador.com/textos_de_jo_soares/ - acesso em 01 de março de 2019 - adaptado
AOCP•
TEXTO II
O Ano Passado
Carlos Drummond de Andrade
O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.
As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.
Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.
E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.
Disponível em: https://www.escritas.org/pt/t/10938/o-ano-passado
EEAR•
Leia o texto para responder a questão.
Chuvas com lembranças
Começam a cair uns pingos de chuva. Tão leves e raros que
nem as borboletas ainda perceberam, e continuam a pousar, às
tontas, de jasmim em jasmim. As pedras estão muito quentes, e
cada gota que cai logo se evapora. Os meninos olham para o céu
cinzento, estendem a mão – vão fazer outra coisa. (Como deseja-
riam pular em poças d’água! – Mas a chuva não vem...)
Nas terras secas, tanta gente a esta hora está procurando, também,
no céu um sinal de chuva! E nas terras inundadas, quanta
gente estará suspirando por um raio de sol!
Penso em chuvas de outrora: chuvas matinais, que molham
cabelos soltos, que despencam as flores das cercas, que entram
pelos cadernos escolares e vão apagar a caprichosa caligrafia dos
exercícios!
Chuvas de viagens: tempestade na Mantiqueira, quando nem
os ponteiros do para-brisa dão vencimento à água; quando
apenas se vê, na noite, a paisagem súbita e fosfórea mostrada pelos
relâmpagos.
Chuvas antigas, nesta cidade nossa, de eternas enchentes:
a de 1811, que com o desabamento de uma parte do Morro do
Castelo soterrou várias pessoas, arrastou pontes, destruiu
caminhos e causou tal pânico em toda a cidade que durante sete dias
as igrejas e capelas estiveram abertas, acesas, com os sacerdotes
e o povo a pedirem a misericórdia divina.
Chuvas modernas, sem igrejas em prece, mas com as ruas
igualmente transformadas em rios, os barracos a escorregarem
pelos morros; barreiras, pedras, telheiros a soterrarem pobre gente!
Por enquanto, caem apenas algumas gotas aqui e ali, que
nem as borboletas percebem. Os meninos esperam em vão pelas
poças d’água onde pulariam contentes. Tudo é apenas calor e
céu cinzento, um céu de pedra onde os sábios e avisados tantas
coisas liam, outrora...
“São Jerônimo, Santa Bárbara Virgem, lá no céu está escrito,
entre a cruz e a água benta: Livrai-nos, Senhor, desta tormenta!”
(Cecília Meireles, Escolha o seu sonho. Adaptado)
A expressão “um céu de pedra”, no penúltimo parágrafo do texto, está empregada em sentido
BRASIL NO PROJETO EHT
A primeira imagem de um buraco negro está circulando pelo mundo já faz uma semana. Esse feito só foi possível a partir de uma combinação de sinais capturados por oito radiotelescópios e montada com a ajuda de um "telescópio virtual" criado por algoritmos. Mais de 200 cientistas de diferentes nacionalidades, que participaram do avanço científico, fazem parte do projeto Event Horizont Telescope (EHT).
Entre eles, está o nome da brasileira Lia Medeiros, de 28 anos, que se mudou na infância para os Estados Unidos, onde acaba de defender sua tese de doutorado (conhecida lá fora como PhD) pela Universidade do Arizona. Filha de um professor de Aeronáutica da Universidade de São Paulo (USP), afirmou, em entrevista ao G1, que cresceu perto de pesquisas científicas. Ela também precisou usar inglês e português nos vários lugares em que morou e, por isso, viu na matemática uma linguagem que não mudava.
Especializada em testar as teorias da física nas condições extremas do espaço, Lia encontrou no EHT o projeto ideal para o seu trabalho. Ela atuou tanto na equipe que realizou as simulações teóricas quanto em um dos quatro times do grupo de imagens. Os pesquisadores usaram diferentes algoritmos para ter os pedaços da imagem do buraco negro captados pelos sinais dos radiotelescópios e preencher os espaços vazios para completar a "fotografia".
O feito de Lia recebeu destaque no site da Universidade do Arizona, que listou o trabalho no projeto de mais de 20 estudantes da instituição, começando pela brasileira. Segundo a pesquisadora, embora os resultados do projeto EHT tenham sido obtidos graças ao trabalho de mais de tantas pessoas, o foco que as mulheres participantes do projeto receberam é positivo para mudar o estereótipo de quem pode e deve ser cientista.
Como você se envolveu com ciência e, mais especificamente, com a astronomia?
Meu pai é professor universitário e cresci perto da pesquisa científica. Decidi que queria fazer um PhD desde cedo, mesmo antes de saber o que queria estudar. Mudei muito durante a minha vida e troquei de línguas entre português e inglês três vezes até os 10 anos. Quando era criança, percebi que, mesmo que a leitura e a escrita fossem completamente diferentes em países diferentes, a matemática era sempre a mesma. Ela parecia ser uma verdade mais profunda, como se fosse de alguma forma mais universal que as outras matérias. Mergulhei na matemática e amei.
No ensino médio, estudei física, cálculo e astronomia ao mesmo tempo e, finalmente, entendi o real significado da matemática. Fiquei maravilhada e atônita que nós, seres humanos, conseguimos criar uma linguagem, a matemática, que não é só capaz de descrever o universo, mas pode inclusive ser usada para fazer previsões.
Fiquei especialmente maravilhada pelos buracos negros e a teoria da relatividade geral. Decidi então que queria entender os buracos negros, que precisava entender os buracos negros. Lembro que perguntei a um professor qual curso eu precisava estudar na faculdade para trabalhar com buracos negros. Ele disse que provavelmente daria certo com física ou astronomia. Então eu fiz as duas.
E como você se envolveu com o projeto do EHT?
Meus interesses de pesquisa estão focados no uso de objetos e fenômenos astronômicos para testar os fundamentos das teorias da física. Eu vejo a astronomia como um laboratório onde podemos testar teorias nos cenários mais extremos que você possa imaginar. O EHT era o projeto perfeito para isso, porque as observações dele sondam a física gravitacional no regime dos campos de força em maneiras que ainda não tinham sido feitas antes. (...)
Tenho dedicado uma porcentagem significativa do meu tempo, durante meus estudos, em tentar expandir a representação das mulheres na ciência, especificamente focando em dar às meninas jovens exemplos positivos nos modelos femininos na STEM [sigla em inglês para ciências, tecnologia, engenharia e matemática]. Por exemplo, frequentemente visito escolas de ensino médio e outros locais para dar palestras públicas.
Na minha opinião, reconhecer que muitas mulheres estão envolvidas nesse resultado pode ser muito benéfico para mudar o estereótipo de quem pode e deve ser cientista. É importante que garotas e jovens mulheres saibam que essa é uma opção para elas, e que não estarão sozinhas se optarem por uma carreira científica.
https://gazetaweb.globo.com/
Piaimã
A inteligência do herói estava muito perturbada. Acordou com os berros da bicharia lá em baixo nas ruas, disparando entre as malocas temíveis. E aquele diacho de sagui-açu (...) não era saguim não, chamava elevador e era uma máquina. De-manhãzinha ensinaram que todos aqueles piados berros cuquiadas sopros roncos esturros não eram nada disso não, eram mas cláxons campainhas apitos buzinas e tudo era máquina. As onças pardas não eram onças pardas, se chamavam fordes hupmobiles chevrolés dodges mármons e eram máquinas.
O herói aprendendo calado. De vez em quando estremecia. Voltava a ficar imóvel escutando assuntando maquinando numa cisma assombrada. Tomou-o um respeito cheio de inveja por essa deusa de deveras forçuda, Tupã famanado que os filhos da mandioca chamavam de Máquina, mais cantadeira que a Mãe-d’água, em bulhas de sarapantar. Então resolveu ir brincar com a Máquina pra ser também imperador dos filhos da mandioca. Mas as três cunhãs deram muitas risadas e falaram que isso de deuses era gorda mentira antiga, que não tinha deus não e que com a máquina ninguém não brinca porque ela mata. A máquina não era deus não, nem possuía os distintivos femininos de que o herói gostava tanto. Era feita pelos homens. Se mexia com eletricidade com fogo com água com vento com fumo, os homens aproveitando as forças da natureza. Porém jacaré acreditou? nem o herói!
Estava nostálgico assim. Até que uma noite, suspenso no terraço dum arranhacéu com os manos, Macunaíma concluiu: — Os filhos da mandioca não ganham da máquina nem ela ganha deles nesta luta. Há empate.
ANDRADE, Mário. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Belo Horizonte: Itatiaia, 1986. p. 110.