A opção de Maria Quitéria de Jesus pela causa da independência é exemplar. Não sabia ler ou escrever, mas
ouviu histórias na pequena propriedade de seu pai no
interior da Bahia, sobre a opressão de Portugal, fazendo
seu coração “arder de amor à Pátria”. Fugiu para a casa
da irmã casada, que a ajudou a vestir-se de homem para
assim poder entrar para o exército patriótico. Participou
de algumas batalhas, distinguiu-se em ação e finalmente
foi recebida pelo imperador, em agosto de 1823, que a
condecorou com a ordem do Cruzeiro e a promoveu a
alferes.
(Maria Lígia Coelho Prado,
América Latina no século XIX - Tramas, telas e textos.
São Paulo, 2014)
Analise a seguir a lei decretada pelo Congresso Nacional, que foi sancionada pelo Presidente da República do
Brasil em 9 de janeiro de 2003:
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que
o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte
Lei: Art. 1o
A Lei no
9.394, de 20 de dezembro de 1996,
passa a vigorar acrescida dos seguintes artigos. 26-A,
79-A e 79-B:
“Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental
e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.
§ 1o
O conteúdo programático a que se refere o caput
deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos
Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra
brasileira e o negro na formação da sociedade nacional,
resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.
§ 2o
Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro
-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e
de Literatura e História Brasileiras.
§ 3o
(VETADO)”
“Art. 79-A. (VETADO)” “Art. 79-B. O calendário escolar incluirá o dia 20 de
novembro como ‘Dia Nacional da Consciência Negra’.”
Art. 2o
Esta Lei entra em vigor na data de sua
publicação.
Brasília, 9 de janeiro de 2003; 182o
da Independência e 115o
da República.
LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
Cristovam Ricardo Cavalcanti Buarque
Analise o excerto, que aproxima a especialização do trabalho industrial ao filme Tempos Modernos, lançado em
1936, dirigido e protagonizado por Charles Chaplin.
A manufatura, diz Marx, “estropia o trabalhador e faz
dele uma espécie de monstro, favorecendo, como numa
estufa, o desenvolvimento de habilidades parciais, suprimindo todo um mundo de instintos e capacidades”. [...]
Em Tempos Modernos são excelentes as cenas em que
o corpo alcança uma condição automatizada, com movimentos precisos e ritmo regular. Procurando mostrá-lo
como mais uma peça da engrenagem, o personagem de
Chaplin perde o controle, tornando-se puro movimento
automático das mãos. [...] Carlitos, enlouquecido, puro
movimento automático, [persegue] uma mulher pela rua,
ao confundir botões de seu vestido com os parafusos que
deve apertar.
(Carlos Alberto Vesentini, “História e ensino: o tema do sistema de fábrica
visto através de filmes”. In: Circe Maria Fernandes Bittencourt (org.)
O saber histórico na sala de aula, 1998)
Os povos de língua tupi-guarani que vasculharam e fizeram migrações sucessivas e progressivas por milhões de
quilômetros quadrados do território tropical e subtropical
da América do Sul caracterizam-se por forte adaptabilidade aos domínios de florestas, ao uso dos rios, incluindo
moradias e tabas construídas em pontos de diques marginais e sítios de baixos terraços. [...] os tupis incorporaram pela primeira vez, na pré-história brasileira, toda a
faixa litorânea frontal do país, tendo por preferência barras de rios e riachos encostados em morrotes ou maciços
costeiros florestados. E chegaram até a Amazônia.
(Aziz Nacib Ab’Sáber, “Incursões à pré-história da América tropical”.
In: Carlos Guilherme Mota (Org.) Viagem incompleta:
a experiência brasileira (1500 – 2000).
Formação: histórias, 2000)
A ocupação do litoral pelos tupis, mencionada pelo
excerto,
Entre todas as revoluções contemporâneas, a Revolução
Francesa foi a única ecumênica. Seus exércitos partiram
para revolucionar o mundo; suas ideias de fato o revolucionaram. A revolução americana foi um acontecimento
crucial na história americana, mas (exceto nos países
diretamente envolvidos nela ou por ela) deixou poucos
traços relevantes em outras partes.
(Eric J. Hobsbawm, A era das revoluções - 1789-1848, 1998)
O caráter “ecumênico”, ou seja, universal, da Revolução
Francesa de 1789, foi expresso pela
O componente curricular História, tal como foi concebido
na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), tem como
um de seus principais objetivos [...] estimular a autonomia de pensamento e a capacidade de reconhecer que
os indivíduos agem de acordo com a época e o lugar em
que vivem, de forma a preservar ou transformar seus hábitos e condutas.
(Itatiba (SP). Prefeitura. Secretaria de Educação.
Currículo do Ensino Fundamental 2: 6o
ao 9o
ano/Secretaria de Educação.
Itatiba: Secretaria de Educação, 2020. Disponível em:
https://www.itatiba.sp.gov.br/templates/midia/secretarias/educacao/
publicacoes/curriculo_ensino_fundamental_ii_6o_ao_9o_ano.pdf)
O excerto refere-se a um dos objetivos da BNCC, cuja
aplicação no processo de ensino e aprendizado consiste
em desenvolver nos estudantes
De qualquer modo, os historiadores são tradutores entre
o passado e o presente, e nesse livro eu tentava fazer o
Renascimento inteligível aos leitores do século XXI. Já
está sendo traduzido em quatro línguas – francês, alemão, italiano e espanhol.
(“Entrevista com Peter Burke”, In: Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke. As
muitas faces da história. Nove entrevistas, 2000)
Cinco séculos de história podem representar muito, considerada a história das civilizações americanas, sobretudo no que diz respeito à experiência particular afro-luso
-brasileira. Experiência de uma cultura já miscigenada na
Península Ibérica, que viria a predominar nessas partes
do globo, gerando interpretações inéditas, muito difundidas e discutíveis sobre a “adaptabilidade” dos portugueses nos trópicos, e que marcariam [fundamentalmente] o
pensamento no Brasil do século XX.
(Carlos Guilherme Mota, “Introdução”. In: Carlos Guilherme Mota (0rg.)
Viagem incompleta: a experiência brasileira (1500-2000).
Formação: Histórias, 2000)
O excerto faz uma espécie de balanço dos quinhentos
anos da história do Brasil, referindo-se à
Foi somente na década de [1920], durante a gestão do
seu segundo diretor, Afonso de Escragnole Taunay (1916
– 1946), que o Museu Paulista afirmou-se enquanto um
museu dedicado à História Nacional e especialmente à
de São Paulo. Durante a comemoração do Centenário
da Independência do país, Taunay aproveitou não só os
festejos deste fato, como também capitalizou os benefícios simbólicos da Independência, que deveriam estar
em harmonia com o projeto hegemônico de São Paulo
no período da chamada República Velha. Nessa ocasião,
Taunay inaugurou a estátua de D. Pedro I – a mesma que
é encontrada até hoje visível ao subirmos a escadaria
monumental do Museu – exaltando-o não como fundador do Império, mas enquanto autor do gesto gerador da
nacionalidade que ocorrera naquele local, numa das províncias mais republicana do país.
(Adriana Mortara Almeida e Camilo de Mello Vasconcellos,
“Por que visitar museus”. In: Circe Maria Fernandes Bittencourt (org.),
O saber histórico na sala de aula, 1998)
A análise da organização do acervo do Museu Paulista
demonstra a possibilidade de
A propriedade sobre escravos não se limitava a grandes
senhores de engenho, fazendeiros e mineradores. Tanto
no campo como na cidade era grande o número de pequenos escravistas, donos de um, dois, três escravos,
trabalhadores na pequena lavoura, nos serviços de rua
ou no de casa. Por todas essas características, os escravos marcaram em profundidade os costumes, o imaginário, a cultura [...] de nossa população. Tendo sido o
Brasil o último país do hemisfério a abolir a escravidão,
em 1888, pode-se dizer que a história do século XIX brasileiro, que viu esse imenso território formar-se enquanto
nação independente, se confunde com a história do apogeu e da queda do regime escravista.
(João José Reis, “’Nos achamos em campo a tratar da liberdade’:
a resistência negra no Brasil oitocentista”. In: Carlos Guilherme Motta (org.)
Viagem incompleta. A experiência brasileira (1500 – 2000). Formação:
histórias. São Paulo: Editora SENAC, 2000)
Foi só a partir de 1884 que o imperialismo – surgido do
colonialismo e gerado pela incompatibilidade do sistema
de Estados nacionais com o desenvolvimento econômico e industrial do último terço do século XIX – iniciou a
sua política de expansão por amor à expansão, e esse
novo tipo de política expansionista diferia tanto das conquistas de característica nacional, antes levadas adiante
por meio de guerras fronteiriças, quanto diferia a política
imperialista da verdadeira formação de impérios, ao estilo de Roma. Por outro lado, o seu fim parecia inevitável
depois que a “liquidação do Império de Sua Majestade”
[...] se tornou fato consumado em consequência da declaração de independência da Índia.
Não se pode negar que tal denominação [América Latina], no presente, é hegemônica, sendo adotada internacionalmente por historiadores, cientistas sociais e pela
imprensa em geral. Assim, aqui também adotamos a
noção de América Latina, cientes das implicações políticas de sua invenção e dos problemas que sua utilização
pode gerar. Não propomos apresentar interpretações generalizantes para toda a região. No decorrer de nossas
análises, enfatizaremos as especificidades nacionais conectadas a contextos latino-americanos mais amplos.
(Maria Lígia Prado e Gabriela Pellegrino,
História da América Latina, 2014)
As historiadoras entendem que o conceito de América
Latina
Entre os constituintes da disciplina escolar, acham-se as
atividades de avaliação, essenciais para se ter o controle sobre o que é ensinado ou apreendido pelo aluno. A
avaliação está relacionada a conceitos de aprendizagem
e articula-se com um tipo determinado de compreensão
de disciplina escolar: tem certas características se a disciplina escolar é entendida apenas como transmissora de
conteúdos, e outras se a disciplina escolar é concebida
como produtora de conhecimento.
(Circe Maria Fernandes Bittencourt,
Ensino de história: fundamentos e métodos, 2008)
O excerto refere-se a dois objetivos básicos e constitutivos dos procedimentos de avaliação, que
O advento da Renascença propriamente dita – trazendo
consigo novas ciências, como a arqueologia, a epigrafia
e a crítica textual, para iluminar o passado clássico – de
repente estendeu a lembrança e a emulação da Antiguidade até uma escala enorme e explosiva. Arquitetura,
pintura, escultura, poesia, filosofia, teoria política e militar, todas se esforçaram em recuperar a liberdade e beleza das obras antes destinadas ao esquecimento.
(Perry Anderson, Linhagens do Estado absolutista, 1998)
A afirmação “recuperar a liberdade e beleza das obras
antes destinadas ao esquecimento” implicava, para os
contemporâneos do Renascimento,
As disciplinas que sustentavam o currículo do ensino
fundamental, nas primeiras décadas do século XX, eram
Língua Pátria, Geografia e História do Brasil, tripé de
formação do espírito nacionalista e patriótico. A partir
da Segunda Guerra Mundial, as ciências físicas, químicas e biológicas, ao lado da matemática, ganharam um
status proeminente e passaram a ser consideradas,
então, como a viga mestra do saber escolar por possibilitarem uma formação de cunho tecnológico, necessária
à vida empresarial. A empresa gera a riqueza da nação,
produz empregos, (ou desemprego), distribui dinheiro,
produz os objetos do sonho consumista [...].
(Circe Bittencourt, “Capitalismo e cidadania nas atuais propostas
curriculares de história”. In: Circe Maria Fernandes Bittencourt (org.)
O saber histórico na sala de aula, 1998)
A Secretaria de Educação do Município de Itatiba
elaborou o Currículo de História para o Ensino Fundamental 2 ao longo de um processo de discussão e
de reflexão, que se estendeu de 2015 a 2020. O presente currículo é o resultado de um duplo movimento de elaboração. Entre 2015 e 2016, a Secretaria de
Educação do município, juntamente com os professores e as professoras da disciplina, empreendeu uma
ampla reformulação do documento curricular. A partir
de 2018, os encontros de formação com os docentes
tematizaram a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o que conduziu o processo
já existente de construção curricular a uma nova fase.
Esse segundo movimento de elaboração incorporou
as novas diretrizes trazidas pela BNCC às discussões
anteriores, procurando compatibilizar o currículo comum nacional com a realidade educacional do município. Neste processo, o Currículo Paulista, finalizado
em 2019, também constituiu uma fonte de referência
importante.
(Itatiba (SP). Prefeitura. Secretaria de Educação.
Currículo do Ensino Fundamental 2: 6o
ao 9o
ano/Secretaria
de Educação. Itatiba: Secretaria de Educação, 2020. Disponível em:
https://www.itatiba.sp.gov.br/templates/midia/secretarias/
educacao/publicacoes/curriculo_ensino_fundamental_ii_
6o_ao_9o_ano.pdf)
O processo de elaboração curricular, exposto pelo excerto,
A divisão da História em grandes períodos é a que prevalece nos cursos de História tanto do bacharelado quanto
da licenciatura e que se tem mantido desde a reformulação decorrente da lei brasileira de Diretrizes e Bases
de 1962, quando foi estabelecido o currículo mínimo
pelo Conselho Federal de Educação, composto de História Antiga, História Medieval, História Moderna, História
Contemporânea, História da América e História do Brasil.
Essa divisão das disciplinas do nível superior, como se
vê, corresponde à maioria das propostas curriculares do
ensino fundamental e médio e é a que está presente nos
livros didáticos.
(Circe Maria Fernandes Bittencourt,
Ensino de história: fundamentos e métodos, 2008. Adaptado)
Tinha a ideia de ler os processos [da Inquisição] nas entrelinhas e também a contrapelo, desvirtuando, por assim
dizer, as intenções das evidências; indo contra ou além
das razões pelas quais elas foram construídas. É o que
Marc Bloch sugeriu quando falou sobre a estratégia de
leitura tortuosa, lendo, por exemplo, a hagiografia medieval não para conhecer a vida dos santos, mas como evidência da história da agricultura medieval.
(“Entrevista de Carlo Ginsburg”. In: Maria Lúcia Garcia Pallares – Burke.
As muitas faces da história. Nove entrevistas, 2000)
Esperava-se que a população do mundo [...] se estabilizasse em cerca de 10 bilhões de seres humanos, [...] por
volta de 2030, essencialmente por um declínio na taxa
de nascimento do Terceiro Mundo. [...] Era certo que os
movimentos previsíveis da população mundial aumentariam os desequilíbrios entre as diversas regiões. No todo,
como no Breve Século XX, os países ricos e desenvolvidos seriam aqueles cuja população seria a primeira a
estabilizar-se, ou mesmo a não se reproduzir mais, como
vários desses países já não o faziam na década de 1990.
Cercados por países pobres com imensos exércitos de
jovens clamando pelos modestos empregos no mundo
rico, que tornam homens e mulheres ricos pelos padrões
de El Salvador ou Marrocos, esses países de muitos cidadãos velhos e poucos filhos enfrentam a opção de permitir a imigração em massa (que [produziria] problemas
políticos imensos) [ou] entrincheirar-se contra os imigrantes dos quais precisam.
(Eric J. Hobsbawm, Era dos extremos:
o breve século XX: 1914-1991, 1995)
As afirmações e reflexões do historiador baseiam-se nas
considerações
As catástrofes eram entendidas, dentro da tradição judaica, em termos de martirologia, o que por sua vez tinha
base histórica tanto nos primeiros séculos de nossa era,
quando judeus e cristãos desafiaram o poder do Império
Romano, quanto nas condições medievais, quando se
oferecia aos judeus o batismo como alternativa para se
livrarem das perseguições, mesmo se a causa da violência fosse política e econômica, e não religiosa.
(Hannah Arendt, Origens do totalitarismo, 1997)
O excerto analisa a questão das perseguições aos judeus
no final do Império Romano e na Idade Média Ocidental,
acentuando