Os movimentos feministas são frequentemente concebidos em
ondas, cada uma marcando um momento distinto das lutas das
mulheres, com reivindicações, pautas e estratégias próprias.
Assinale a opção que apresenta a característica distintiva da
chamada quarta onda do feminismo.
Pierre Bourdieu foi um dos principais sociólogos do século XX. Em
sua vasta produção intelectual, Bourdieu foi um dos responsáveis
pela atualização de um conceito aristotélico, também utilizado
por Marcel Mauss, e que ocupa um lugar central nos debates
sobre corpo, indivíduo e sociedade. No vocabulário de Bourdieu,
tal conceito é definido do seguinte modo:
“[…] é uma noção mediadora que ajuda a romper com a
dualidade de senso comum entre indivíduo e sociedade ao captar
a interiorização da exterioridade e a exteriorização da
interioridade, ou seja, o modo como a sociedade se torna
depositada nas pessoas sob a forma de disposições duráveis, ou
capacidades treinadas e propensões estruturadas para pensar,
sentir e agir de modos determinados, que então as guiam nas
suas respostas criativas aos constrangimentos e solicitações do
seu meio social existente.”
O conceito renovado por Bourdieu nessa definição é o de:
Em um dos seus artigos, o antropólogo José Reginaldo Gonçalves
discute os chamados “bens inalienáveis”. Diz ele:
“Os interesses mobilizados pela possibilidade de comprar e
vender livremente determinados bens eram vistos como um
meio nefasto de descaracterização desses bens e de perda de sua
autenticidade. A busca da autenticidade confundia-se, de certo
modo, com uma constante e obsessiva proteção contra os efeitos
de mercado.”
Essa reflexão ajuda a problematizar a oposição entre as seguintes
arenas de valoração:
Leia o trecho a seguir.
Não foram apenas os intelectuais racistas formuladores das
propostas de branqueamento racial ou os propagadores da
mestiçagem hierarquizada e cordial que viram os povos bantos
como dotados de um conjunto de práticas desprovidas de maior
profundidade. Até mesmo intelectuais comprometidos com a
valorização das culturas africanas para a formação da identidade
brasileira consideraram os saberes e espiritualidades dos bantos
menos sofisticados, complexos e elaborados do que os dos iorubás,
trouxeram ao Brasil o culto dos orixás.
SIMAS, Luiz Antonio. Umbandas: uma história do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2022.
Com base no trecho, que aborda as tensões em torno das culturas
africanas no Brasil, assinale a afirmativa correta.
No trecho a seguir, Philippe Descola apresenta elaborações sobre
a relação entre humanos e meio ambiente.
Faz pouco tempo que começamos a ter a medida do preço
extremamente alto que será preciso pagar pela exploração
imoderada de nosso meio ambiente, com a poluição crescente do
solo, do ar, da água e também dos organismos vivos, com o
desaparecimento acelerado de inúmeras espécies de plantas e
animais, com as consequências dramáticas do aumento do efeito
estufa sobre o planeta. Em outros lugares do mundo, muitas
culturas não seguiram o mesmo caminho, não isolaram a natureza
como se ela fosse um domínio à parte, exterior, onde toda causa
pode ser estudada cientificamente e onde tudo pode ser
rentabilizado a serviço dos homens.
DESCOLA, Philippe. Outras naturezas, outras culturas. São Paulo: Editora 34, 2016.
De acordo com o que é exposto no trecho, assinale a afirmativa
correta.
[O] cenário muda radicalmente com a constatação de que os TupiGuarani eram capazes de produzir muito além dos níveis vitais. No
que se refere a desenvolvimento, isso obriga a pensar nos nativos
como produtores de excedentes, como produtores de riqueza – a
tomá-los como base para a história [da riqueza no Brasil].
CALDEIRA, Jorge. História da riqueza no Brasil. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2017.
O texto refere-se à mudança de entendimento sobre aspectos
econômicos dos povos indígenas brasileiros, o qual carregava valor
paradigmático.
No fragmento a seguir, Marcel Mauss discorre sobre a vida
econômica em determinadas sociedades não ocidentais,
propondo um contraste em relação às concepções modernas.
[T]oda essa economia muito rica está cheia de elementos
religiosos: a moeda tem ainda seu poder mágico e ainda está
ligada ao clã ou ao indivíduo; as diversas atividades econômicas,
por exemplo o mercado, ainda estão impregnadas de ritos e de
mitos; conservam um caráter cerimonial, obrigatório, eficaz; estão
repletas de ritos e de direitos. É algo muito diferente do útil que
circula nessas sociedades, a maioria delas já bastante esclarecidas.
MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003.
De acordo com o fragmento, assinale a afirmativa correta.
No texto a seguir, o autor apresenta uma aparente contradição no
discurso da modernidade.
Se o “espírito” era “moderno”, ele o era na medida em que estava
determinado que a realidade deveria ser emancipada da “mão
morta” de sua própria história — e isso só poderia ser feito
derretendo os sólidos (isto é, por definição, dissolvendo o que quer
que persistisse no tempo e fosse infenso à sua passagem ou imune
a seu fluxo). Lembremos, no entanto, que tudo isso seria feito não
para acabar de uma vez por todas com os sólidos e construir um
admirável mundo novo livre deles para sempre, mas para limpar a
área para novos e aperfeiçoados sólidos.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
Leia o trecho a seguir.
Se, por um lado, o sonho é sempre desencadeado pela vontade de
um outro, e o sonhador aparece como uma “presa”, uma vítima,
alguém à mercê de um sentimento que lhe é alheio, por outro, o
sonhador não está de forma alguma inteiramente subjugado aos
sentimentos desse outro. Os vivos resistem aos apelos incessantes
desses outros, e é porque resistem que eles podem continuar
existindo como Yanomami.
LIMULJA, Hanna. O desejo dos outros: Uma etnografia dos sonhos yanomami. São
Paulo: Ubu Editora, 2022.
O trecho acima apresenta um aspecto central da concepção
Yanomami de sonho.
Com base no texto, é correto afirmar que, para esse povo, os
sonhos são
Certo, é verdade que a expressão “arte por arte” é vazia de sentido
nas sociedades tradicionais da África negra. Toda produção
artística era antes funcional, isto é, chamada a desempenhar um
papel utilitário, exceto a aspiração do artista. Uma estatueta que
para um europeu satisfaria o gosto por suas formas harmoniosas,
um pingente que lhe serviria para sublinhar uma parte do corpo,
tudo isso era destinado a cumprir uma certa função.
MUNANGA, Kabengele. “A dimensão estética na arte negro-africana tradicional”. In:
Arte afro-brasileira: o que é afinal? Lisboa: Oca Editorial, 2020.
No Ocidente, a noção de “arte por arte” consolidou-se como uma
valorização da experiência estética autônoma.
Com base na perspectiva apresentada pelo autor, assinale a
afirmativa correta.
No prefácio do livro “Trecos, troços e coisas”, o antropólogo
Daniel Miller propõe o seguinte:
“O leitmotiv deste livro é um questionamento da oposição,
vigente no senso comum, entre pessoa e coisa, animado e
inanimado, sujeito e objeto. Em alguma medida, a ciência tem
conseguido evitar isso. […] Aqui, em contraste, estou interessado
em desenvolvimentos na ciência social, e não na ciência natural,
e no encontro qualitativo da antropologia com a diversidade dos
povos e a crescente diversidade das coisas.”
O objeto de estudo proposto por Daniel Miller é(são):
Leia o trecho abaixo do artigo “Natureza & Cultura, versão
americanista – Um sobrevoo”, de Renato Sztutman.
“(…) seres não humanos que se veem sob forma humana
deveriam ver os humanos sob forma não humana, uma vez que a
humanidade é uma posição e não uma substância, uma
propriedade intrínseca a certa porção de seres. Um porco do
mato, por exemplo, se vê como humano enquanto vê o humano
como jaguar ou como espírito predador. Ora, todos esses
existentes são, potencialmente, humanos (partilham a mesma
condição de humanidade [humanity]) apesar de não serem todos
da espécie humana (humankind). São todos sujeitos dotados de
comportamento, intencionalidade e consciência, estando
inseridos em redes de parentesco e afinidade, fazendo festas,
bebendo cauim, reportando-se a chefes, fazendo guerra,
pintando e decorando seus corpos. O que está em jogo, aqui,
portanto, é a diferença entre perspectivas, o que nos envia a uma
filosofia ameríndia da diferença.”
Esse trecho descreve o modo de relação entre humanos e não
humanos característico da forma de pensamento ameríndio
denominada:
Um grupo de trabalho desenvolveu um software próprio que
utiliza a API de um modelo de IA (inteligência artificial) para
automatizar processos de análise e monitoramento de dados na
gestão do patrimônio cultural.
A antropóloga brasileira Fabiola Rohden, em um artigo publicado
em 2002 e dedicado às contribuições de Marilyn Strathern sobre
o tema do parentesco, escreveu:
“Os sistemas de parentesco e as formas de família são pensados
como arranjos sociais que têm como base a reprodução biológica.
Esses arranjos são vistos como passíveis de assumirem formas
diversificadas em culturas e sociedades diferentes, embora
sempre assentados sobre uma mesma e única referência, que são
os ‘fatos naturais’ da vida.”
Ao apresentar a discussão sobre parentesco, Rohden faz
referência ao seguinte dualismo caro aos debates da antropologia
contemporânea:
Em seu livro “A caminho da cidade”, publicado em 1978, a
antropóloga Eunice Durhan escreveu:
“A industrialização e a urbanização significam a quebra de
isolamento das comunidades tradicionais, a crise do sistema
produtivo rural e da estrutura tradicional de autoridade, a
negação dos velhos valores, a adoção de novos padrões de
comportamento.”
O processo social que promove essa transformação da ordem
social é(são):
Em seu artigo “O futuro nos laudos antropológicos”, o
antropólogo Paulo Santini afirma:
“Com respeito ao reconhecimento oficial de direitos territoriais
indígenas — em que a delimitação substantiva de um território é
exigida para o cumprimento do artigo 231 da Constituição —, a
primeira, senão a única atribuição legal de antropólogos é a de
empreender e coordenar os estudos dos grupos técnicos
instituídos para proceder à identificação e à delimitação das
terras ocupadas tradicionalmente pelos índios; requere-se dos
especialistas que tracem e demonstrem a continuidade entre
povos pré-colombianos e populações atuais.”
A realização de um laudo antropológico pressupõe o emprego de
técnicas de pesquisa consagradas pela disciplina.
A técnica de pesquisa antropológica, indispensável na produção
de laudos, que permite ao técnico acessar a realidade social em
questão, entrar em contato com o grupo pesquisado e conhecer
suas singularidade é(são) o(s):
[É] nosso modesto parecer que o futuro da noção-mestra da
antropologia, a noção de relação, depende da atenção que a
disciplina souber prestar aos conceitos de diferença e de
multiplicidade, de devir e de síntese disjuntiva. Uma teoria pósestruturalista da relacionalidade, isto é, uma teoria que mantenha
o compromisso “infundamental” do estruturalismo com uma
ontologia relacional, não pode ignorar (...) as ideias de perspectiva,
força, afeto, hábito, evento, processo, preensão, transversalidade,
devir e diferença.
VIVEIROS DE CASTRO, E. Metafísicas canibais. São Paulo: Cosac Naify, 2015.
O pensamento pós-estruturalista busca um afastamento crítico de
características fundamentais do modelo estruturalista.
O trecho a seguir discorre sobre os desafios que os movimentos
indígenas enfrentam na luta pelo reconhecimento institucional
dos conhecimentos tradicionais.
A influência das ideias dominantes opera em dois sentidos
aparentemente contraditórios. De um lado, os movimentos
indígenas formulam reivindicações nos termos de uma linguagem
de direitos dominante, passível de ser reconhecida e, portanto, de
ser bem-sucedida. De outro, esses conceitos supõem, ao falar em
“conhecimento tradicional” no singular, que um único regime
possa representar uma miríade de diferentes regimes históricas e
sociais de conhecimento tradicional.
CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. “Cultura” e cultura. Conhecimentos tradicionais e
direitos intelectuais. Lisboa: Oca Editorial, 2020. (Adaptado.)
Assinale a opção que descreve corretamente a situação descrita.
O decreto 8.772/2016 regulamenta o Marco Legal da
Biodiversidade e trata do acesso e proteção ao Conhecimento
Tradicional Associado (CTA), entendido como a informação ou
prática de povo indígena ou comunidade tradicional associada ao
patrimônio genético.
Segundo a norma, populações indígenas e comunidades
tradicionais
A Instrução Normativa do Iphan 1/2015 estabelece os
procedimentos a serem observados pelo Iphan nos processos de
licenciamento ambiental dos quais participe, em função de
possíveis impactos negativos sobre bens tombados. Para orientar
a avaliação, a instrução normativa enquadra os empreendimentos
em níveis de I a IV, indicando os procedimentos administrativos
exigidos para cada um.
Considerando o enquadramento citado, assinale a opção que
caracteriza corretamente os empreendimentos, em função do
nível a que pertencem.